Quinta-feira, Julho 16, 2009

Distância

















Talvez seja esta a única forma de te amar.

No silêncio que o meu corpo nutre ao mesmo tempo que a sede dos teus beijos espicaça a memória, e os meus dedos apertam o vazio, sabendo que no espaço entre eles, residem os teus.


E mesmo naquele vazio neutro, que percorre cada ponto fulcral da ausência, a tua existência anuncia-se a cada fechar de olhos, sempre que lembro o teu odor a tomar conta do meu. Em cada pensamento consciente de que eu sou em ti, o mesmo que tu és em mim e assim, somos inteiros, um no outro.

Mas é demasiado exigente e interminável, o vazio consequente que me pousa nos ombros e vocifera a tua falta em todos os meus espaços.


Meu amor, a distância é uma longa viagem em dose dupla.


E hoje, chamo-te saudade.






(photo by ???)

Segunda-feira, Julho 13, 2009
















Quando o reflexo te toca, o que vês

Quando a mão que procuras te alcança, o que sentes

Quando o coração te irrompe do peito e me diz, o que pretendes ouvir

Quando a comunhão de pele se faz poro a poro, qual o sentido

Quando o teu olhar profundo mergulha no meu, e substitui o objectivo das mãos, o que procuras

Quando me vês, o que te revelo

Quando me beijas, qual o gosto



Quando me tens, o que te sou?





(saído assim, de rompante)

(photo by Jamie Kelly)

Terça-feira, Maio 26, 2009

Procuro-te
























procuro-te…



e vivo-te na minha própria saudade, sabendo que para lá dela está também a tua, num bater de alma que nos afoga os sentidos no corpo e nos recolhe as mãos de encontro ao peito, como pássaro cativo do teu sentir



procuro-te…


em cada sílaba tónica, em cada vírgula, em cada espaçamento de tempo entre as tuas palavras, por entre cada extensão do teu olhar dentro do meu, por entre cada respirar nas pausas de um beijo



procuro-te…

no sentir de cada recanto teu quando fecho os olhos. Em cada trajecto das tuas mãos pela memória do meu corpo, em cada sopro desfeito num “amo-te”, em cada “quero-te” sussurrado



procuro-te…


nas pedras que piso, e que choram pelos passos intervalados dos meus longos dias sem ti


e nas paredes arranhadas pelo desejo, que sufocam as palavras que mais ninguém ouve para além de mim, e ninguém mais as sente para além de nós


procuro-te…


e é por entre todos os meus silêncios distantes, que em ecos impelidos pela memória, a tua presença acontece.





E por fim…És-me.






photo by Khaostik

Quinta-feira, Maio 14, 2009

Curtas 40 - Ângulos






















O segredo do sorriso, do verdadeiro sorriso, não está no propósito, mas no ângulo dos lábios.

Não tem ciência, mas tem a geometria de um batimento, a flexibilidade de um abraço e a direcção de um beijo.

Tem a idade das emoções e o peso da felicidade bi-horária.

Não tem preço, mas sabe-se que por vezes custa tanto, por todo o alheamento que vemos e sentimos à nossa volta.

Tem um caminho sinuoso, percorrido da tua boca à minha, por entre uma batida do coração e outra, e outra, cada vez mais fortes e intensamente prolongadas.

O segredo do sorriso, do verdadeiro sorriso, não está no objectivo. Está nas tuas mãos que tocam até ao mais profundo de mim e por lá se passeiam indefinidamente, como se houvesse um sítio, um único sítio, para elas ainda desconhecido.

E o sorriso surge, naturalmente, por entre o ângulo que define o amor, que une os nossos corpos numa perfeita fusão de sangue, sabor e sentir.

E vem de novo o batimento, em batidas fatais que nos encharcam a alma até aos ossos. E somos um único pulsar de veias que chocam de frente, olhos nos olhos, com a ânsia de um pelo outro.

E de novo o sorriso, sem segredo no propósito, mas no ângulo do sincronismo.
Na lembrança que juntos somos um único elemento. Como só nós o sabemos ser e sobretudo fazer.


Como só nós o sentimos na luz presente de um beijo apertado, mesmo conhecendo o assombramento do futuro.



...Sorrimos...



E é no ângulo do sorriso. No meu longe do teu. No teu longe do meu, que nós nos encontramos sempre, sempre, na geometria da memória.



(photo by José Azevedo)

Quarta-feira, Maio 06, 2009

E de repente TU.




















Sobe o pano no silêncio e de repente TU.

Na indiferença das luzes escorregadias que já nem os pés iluminam.

Do chão que foge do encontro dos teus passos.

E o teu olhar depende apenas do aplauso do abandono, que rapidamente assume o seu melhor papel do vazio de ti.

Aí estás TU. Em prostração. Ao aplauso de quem tanto tentou para que, pelo menos, uma cadeira se mantivesse ocupada.

Calor.
Que não mais existe.
Vulto em despedimento.
Sombra que se foi.
Porta que bateu. Num fechar sem nunca mais abrir.

Sobe o pano e de repente TU.

( Luz escorregadia. Baça. Cansada. )

Não com esperança. Mas na expectativa do dia.

Do dia das três pancadas em que o pano desce, sem nunca mais voltar a subir.

E no silêncio, possas assumir o lugar, desocupado do calor que se foi, num vulto de ombros caídos.


E uma sombra que fica.





Que se abra a porta…





(música: Into Dust | Mazzy Star)

Sexta-feira, Abril 24, 2009

Curtas 39 – Por dentro



















E chega aquele momento em que de dois passamos a um. De quatro mãos fazemos apenas duas e de um amontoado de pele, saliva e poros, um único deleite.


O momento em que nos confinamos às paredes do que somos, porque juntos misturamo-nos por dentro delas e pintamos e repintamos o Amor, criando uma tela de mil e um sentires numa plenitude inconfundível, porque apenas a nós pertence.


E deixamos que o nosso melhor nos vença os sentidos, cansados do que vem de fora, e resvale para lá do que somos.



( E somos tanto. Somos tanto mais! )


Mergulhamos bem lá por dentro para chegar a todas as fendas e brechas até ao atingir do ponto. Daquele fugaz ponto que permite o descontrolo do teu olhar no meu.

O desvario da tua boca na minha e o êxtase trémulo que nos percorre o corpo ansioso.


E do teu suor faço o meu, da tua língua o meu desatino e do teu beijo a minha entrega.

Transmutamo-nos em altar um do outro, fazendo de ti o meu sangue e eu, o teu corpo, elevando a carne ao espírito em perdição por tragos de vida que raramente tocamos. E é por dentro que nós nos somos verdadeiramente.


( E somos tanto. Somos tanto mais! )



E continuamos. Juntos. Lado a lado. De mãos dadas. Bem por dentro.


E insistimos em mergulhar de olhos fechados.



E perseguimos na busca das brechas onde nos perdemos, reinventando a rendição do toque de dedos por toque de pele.


E persistimos um no outro, mesmo quando o vazio nos arrasta. Mesmo quando a solidão se perpetua por dentro, nos risca as paredes e arranca soalhos.



E por dentro, persistimos um no outro, sabendo que lá fora, lá fora os sentidos cansam.






E somos tanto. Cada vez mais.







Segunda-feira, Abril 20, 2009

Sem Paredes não há Cor















As palavras tal como o Amor não têm apenas cor.

Têm histórias, cheiros e momentos.

Têm o nosso espectro e reflexos.

Têm sombreados e intenções estampadas em cada recanto.

Têm nomes e datas em cada olhar de soslaio.

Têm noites feitas num beijo e um nascer do dia num abraço apertado.

Têm o Eu e o Tu, retocado nos limites intersectados das linhas.

Mas no fundo não interessa muito a cor, muito menos se existe um papel de parede.

O que interessa, na realidade, é a consistência do material, e a forma como conseguimos manter as cores unidas, sem desbotar, sem se dissolverem umas nas outras, e sobretudo sem as largar.
As palavras, tal como o Amor, precisam do corpo. Da substância. Dos alicerces.

De que interessa a cor, se no final, as paredes que tudo amparam, não passam de uma fina camada de estuque, vulneráveis ao tempo e prontas a descascar.

E dessas paredes, de aparência consistente, infelizmente não faltam ao alto. E por mais que se mude a cor, o estuque é sempre o mesmo, o descasque inevitável e a ruína iminente.

E há quem nem se importe…

E há quem consiga viver assim…


Esperando que lá por dentro, sob a cor do estuque, não se enferruje de vez.





Texto re-pintado