Quinta-feira, Fevereiro 02, 2012

Portugal
















Digo isto com toda a tristeza que me pode assistir: este país apodreceu, está fétido e praticamente morto. Diria "paz à sua alma", mas o Diabo antecipou-se....

Aos mortos exigem o pagamento de dívidas, aos vivos, que que deixem de viver e os políticos vão comendo-se uns aos outros para poderem comer cada vez mais do nosso prato. E nós, gente, povo, vamos deixando, sem reclamar, ou então, sem reclamar muito.

Este outrora país, país de Camões, de Pessoa e de outros tantos que morreram com Portugal na boca e no orgulho, está moribundo. Hoje somos parte chineses, parte europeus, alemães, franceses, brasileiros! Parte de qualquer coisa que não nos está no sangue. Somos uma espécie de marca branca que já ninguém quer comprar.

Éramos tanto. Fomos tanto durante séculos de existência. Metade do mundo foi nosso! Demos nome às terras, língua aos povos, possuímos os mares mais bravos do mundo, passando "além da dor" e hoje, só a dor nos persegue.

Portugal, hoje és lixo, dizem.
És um poço sem fim à vista onde todos nós nos afogamos, gente, povo, enquanto outros vão trepando por nós acima, calcando-nos a carne e o orgulho, levando-nos tudo o que podem, mesmo sem poder. Não é roubo, é "sacrifício", dizem....

Portugal, hoje, és um fado chorado, cansado, mutilado.

E eu sinto-me uma orfã de nacionalidade triste, a velar-te baixinho.

Quinta-feira, Janeiro 26, 2012

Para a pessoa responsável pela minha existência

Há lugares onde só existe o teu nome, o teu sorriso, a tua imensurável dádiva.
Há lugares onde só tu existes, Mãe. Caminhos estreitos que só tu percorres de pés descalços. Sítios onde só tu pedes a quem se calhar não te ouve e sítios onde continuamente te perdes, mesmo no meio de tanta gente.
Há lugares, tão poucos, quase nenhuns, onde só o teu coração cabe. E há um onde ele bate. No meu.
Há espaços, como o lugar do meu coração, onde tu vives, onde o teu sangue pulsa. Existes mãe, todos os dias, dentro de mim, e dentro dessa gigantesca palavra que é só tua e que significa amor.
Há lugares que só nós as duas percorremos, trilhos espinhosos que só nós os compreendemos, tal como nos compreendemos sempre uma à outra, como se telepaticamente conseguíssemos dizer as coisas que sentimos, o que nos dói hoje, o que nos vai doer amanhã.
Há lugares tão escuros, mãe, que só tu tens a capacidade de iluminar, de lhes dar o cheiro das flores que trazes sempre no peito. Só tu mãe, consegues arrancar os fantasmas da noite, os espinhos das minhas mãos, e ler os silêncios que teimam em perpetuar no meio dos meus ruídos.

E é no teu colo que os meus desassossegos continuam a procurar refúgio. É no teu colo que continuamente mato a sede do conforto que só uma mãe consegue proporcionar, porque mais nenhum tem o mesmo sabor, o mesmo sentido, o mesmo cheiro.

Existes, Mãe. Sempre. Dentro de mim. Dentro dessa palavra, gigante novelo, que significa amor.

Quinta-feira, Janeiro 05, 2012

(im)possíveis



















Querido coração

Hoje é para ti que falo. Venho pedir-te para que não páres de bater, que tentes mais uma vez resistir, ou pelo menos finge que sim. Venho pedir-te que continues dentro do meu peito mais do que ferido e irrespirável, tomado pela noite que levou o descanso para longe.

Querido coração: sem ti, o que será dos outros corações que trazes nas mãos. E sem eles, o que será da minha vida?


Ilustração de Miguel Ministro, do meu livro, Lado B.

Sexta-feira, Dezembro 30, 2011

Ano Novo


Já não tenho grandes pedidos para novos anos, porque a vida ensinou-me a não fazer grandes planos. Tenho desejos, sim, muitos. Alguns, se calhar, até impossíveis, mas continuam a perdurar em mim, vivos e de sangue quente, apesar de silenciosos. E eu, que uso tantas vezes o sangue e o silêncio nas minhas palavras, neste não poderia ser diferente.

Por falar em diferente, é isso que quero para o novo ano, quero dias diferentes aos do ano que está prestes a terminar. Já não peço mais do que isso.

Aos caros amigos, leitores deste espaço (cada vez mais vazio), desejo um bom ano para todos.

RB

Segunda-feira, Novembro 14, 2011

Teatro

















Vamos teatralizando a  vida como se nada nos importasse. Como se tudo nos passasse ao lado do olhos, do coração, ao lado daquilo que somos.
Vamos fazendo de conta. Porque afinal, isto é só um livro, uma história muito mal contada, e nós, personagens mascaradas que nunca chegam a morrer.

Segunda-feira, Outubro 31, 2011

vómito

Abro a boca e espalho silêncios infecundos por todas as divisões, 
como se o silêncio pudesse, de alguma forma, apaziguar-me a alma que deixou de crescer. 
Sinto que a vida esventrou-me. Saiu de mim apressadamente como quem foge do medo e do perigo. Parou num beco da existência e mergulhou a fundo num canto sujo qualquer, esgueirando-se por um intervalo do mundo.
Hoje sou eu que vomito silêncios,
ao mesmo tempo que a alma deambula pelos sítios onde onde dia cantou,
pelos sítios onde a minha boca já não sabe chorar.

Segunda-feira, Outubro 24, 2011

dúvida

A poesia é tão pessoal para quem a escreve, quanto impessoal para quem a lê.

Se eu disser cansa-me não saber esperar por ti, o que significará isto para quem não sabe sentir com os olhos?