Quinta-feira, Julho 20, 2006

Para a Papoila

Medos que assustam.
Medos que paralisam.
Medos que metem muito medo.
Existem alturas em que estamos dispostos
A ultrapassá-los.
E sentimos uma força dentro de nós
Tão forte, que pensamos invencível.
Sentimos os pulmões cheios de ar,
Pronto a ser renovado.
Temos vontade de sorrir
O gosto da conquista,
Mas sobretudo,
Sorrir a vontade de conquistar.
Até de cometer algumas loucuras
Pelo meio, não é?
E que boa que é esta sensação,
De sentirmos que temos o poder
E as rédeas não da nossa vida
Mas do nosso desejo e da nossa vontade
Apenas nas nossas mãos.
Que força!
Que pulsar de vida dentro nós!
Mãos dispostas a trabalhar,
E coração aberto a mudanças.
É isso que é preciso.
É preciso, sentir nas nossas entranhas,
O ímpeto de calcar o medo,
E a vontade louca de ir em frente.
Não sabes o que vais encontrar,
Mas também não perdes nada com isso.
Ergue-te, Papoila!
Ergue-te e cria a confiança necessária
Para seguires os teus trilhos,
Como diz o Brain, OPTA, se puderes!
Sei que não é fácil.
É muito mais fácil falar.
Mas pelos menos, temos a capacidade,
De tentar mudar a nossa própria História.

Escreve um livro!
Guarda-o para ti, ou se desejares, revela-o.
Cria a tua Teia, tal como eu criei a minha.
Pula em cima dela!
Junta os teus amigos e pulem juntos.
Partilha-a com quem achares,
Que pula ao mesmo ritmo que tu.
Faz música!
Faz sorrisos!
Faz momentos únicos!
Faz o que te der na gana!

Mas FAZ!

Quarta-feira, Julho 19, 2006

Cansaço...

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas
Essas e o que falta nelas eternamente
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos

Terça-feira, Julho 18, 2006

Templos

Todos nós temos um templo.
Interior ou exterior,
Feito de pedra, divindades
Ou mesmo de carne e osso,
Para onde fugimos quando o coração aperta
E o espírito mingua.
Nesses templos,
Tentamos resolver-nos
Como se fossemos um problema.
E nas paredes do nosso templo,
Tentamos a resolução.
Construímos equações extensas,
Compostas de fórmulas complicadas,
Cheias de incógnitas.
Fazemos contas aos dias,
Subtraímos derrotas
E multiplicamos vitórias,
Na esperança
Que o resultado seja positivo.
Quando damos por isso,
Temos a parede do nosso templo
Repleta de gatafunhos, cálculos,
Raciocínios e rasuras.
Resultado?
Achamos as incógnitas?
Persistimos na busca?
Afinal,
O que tanto procuramos no nosso templo?
Refúgio ou orientação?
Soluções ou caminhos para os atingir?

Sexta-feira, Julho 14, 2006

Teia

Teço os meus pensamentos,
Tal como uma aranha tece a sua teia.
A ordem pela qual começo
É que nem sempre é a mesma.
Ora pelo inicio,
Ora pelo fim,
Ou até mesmo pelos meandros.
Quando dou por mim,
Tenho um emaranhado de pensamentos,
De sentimentos,
De opiniões difusas.
Hoje digo sim,
Amanhã digo não.
Depois não sei,
No futuro, … talvez.
Depois de bem tecer a minha teia,
Pulo em cima do meu raciocínio,
Para ver se está ou não consistente.
(Será que a aranha faz o mesmo?)
E tal como este bichinho,
Tento captar para a minha teia, quem comigo
A quiser partilhar.
Poucos caíram.
Mas os que caíram, ainda hoje, pulam comigo!
Fizemos do meu emaranhado
De pensamentos, ideologias, visões sobre mundo,
Sobre as coisas e sobre os outros.
Algo comum…
E se cada um de nós,
Puxar por um fiozinho desta teia disforme,
Mas mágica,
Conseguimos fazer música!
Inaudível e incompreensível para todos os outros,
Talvez.
Mas fio a fio,
Puxando fio aqui e fio acolá,
Lá vamos afinando tons e ajustando
Ritmos de vida.
Um dia, quem sabe,
Soamos como um violino!
É isso que ambiciono,
Que a minha teia disforme,
Soe à doce melodia de um violino.


Quinta-feira, Julho 13, 2006

O Meu Amor Existe

O meu amor tem lábios de silêncio
E mãos de bailarina
E voa como o vento
E abraça-me onde a solidão termina.


O meu amor tem trinta mil cavalos
A galopar no peito
E um sorriso só dela
Que nasce quando a seu lado eu me deito.

O meu amor ensinou-me a chegar
Sedento de ternura
Sarou as minhas feridas
E pôs-me a salvo para além da loucura.

O meu amor ensinou-me a partir
Nalguma noite triste
Mas antes, ensinou-me...
A não esquecer que o meu amor existe.


Ao Brain e esposa.
Parabéns.

Segunda-feira, Julho 10, 2006

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
E o que nos ficou não chega
Para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
Gastámos as mãos à força de as apertarmos,
Gastámos o relógio e as pedras das esquinas
Em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
E não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
Quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
De que todas as coisas estremeciam
Só de murmurar o teu nome
No silêncio do meu coração.

Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade

Sexta-feira, Julho 07, 2006

Conselho

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.

Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim com lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...

Fernando Pessoa


Um conselho de Pessoa e meu também...

Quarta-feira, Julho 05, 2006

Viagem ao Fundo de Nós

Por vezes é necessário, levantar ancoras
E ir à descoberta de nós mesmos.
E nesta viagem, de caminhos desconhecidos
E ruelas tortuosas,
Teremos que enfrentar tantas coisas:
Coisas conhecidas mas esquecidas;
Coisas que queremos esquecer, mas não conseguimos;
Pessoas que se perderam no caminho;
Pessoas novas e reencontradas;
Sonhos perdidos;
Sonhos alcançados;
Choros sufocados;
E risos de nos encher os pulmões de vida.
Há que fazer as pazes connosco.
Reencontrar-nos e dar-nos um abraço
Do tamanho do alcance da nossa vontade.
Há que aliviar os pulmões,
E gritar bem alto que nos reencontramos
E que apaziguamos dores e mazelas
Que recuperamos forças e vontade,
De continuar esta viagem dentro de nós.
De conhecermos becos sem saída
E ter a capacidade de encontrar brechas
Por onde fugir.
Há que ter medo também,
Para que o possamos ultrapassar,
Como se de um muro se tratasse.
Há que ter fé que um dia
Nos vamos conhecer,
Conforme outros já nos conhecem.

Terça-feira, Julho 04, 2006

Estações do Coração


Existem amigos, que vão ficando para trás.
E tomar-mos consciência disso é muito triste.
O que leva uma amigo a afastar-se?
Este pergunta levanta outras tantas,
Para as quais buscamos respostas.
O que me leva a chamar alguém de amigo?
Afinal, terá sido esta pessoa merecedora
Do que de melhor trago em mim?
Será?
Até que chegamos à conclusão,
Que esse amigo, afinal estava de passagem.
Não gostou da estadia no nosso coração
Nem gostou da paisagem que o mesmo lhe oferecia.
Arrumou malas, e fez-se à vida,
Como tantas outras pessoas que por nós passam,
E esquecem.
No fundo, seremos uma comparação triste
De uma estação.
Ou mesmo de um apeadeiro,
Onde por vezes ninguém
Quer sequer parar.
Isto é tão triste.
Este sentimento de que,
Algo que supostamente parecia de betão firme
Afinal, tinha alicerces de barro,
Que se desfizeram, mal caíram as primeiras chuvas.
Que triste uma amizade desfeita.
E ainda mais triste é,
Aquele primeiro olhar, depois da uma já distante despedida,
Tão frio,
Tão penalizante para ambos,
Como se nada tivesse passado.
Como é que as pessoas
Conseguem lidar com isto?
É preferível o comboio andar sempre.
Não parar para não ferir momentos passados,
Que mesmo passageiros, estão lá, bem guardados
Na nossa estação.
Agora, esses momentos são peça de museu empoeirados.
Mas não deixam de fazer um pedacinho de história.
O que vale, é que na nossa estação, não falta movimento.
Só falta saber quem vai e quem fica...
E para quem vem, fica o agradecimento e o desejo:


Obrigada pela visita e volte sempre!