Sexta-feira, Setembro 28, 2007

Tenho (me)









Tenho um areal construído

Conchas e búzios, de sonhos feitos e desfeitos

Estrelas-do-mar, prontas a desfiarem o futuro

E um mar, que recebe o sal das minhas lágrimas

Tenho os poetas

Sentados ao meu lado

Que sem saberem

Choram-me nas suas palavras

E com eles, comovo-me

E juntos, choramos

Tenho as músicas

Que me cantam

Sem consciência, de que alguém, está a ser cantado

Tenho um punhado de sonhos na palma da mão

À espera do seu tempo, sem tempo

Tenho tantas coisas

Tenho tantos nadas

Tenho...

A areia fria a sentir na pele

Um travo salgado nos dedos

E a ilusão de um céu

Cujo sabor desconheço



(hoje, apeteceu-me...)

Quinta-feira, Setembro 20, 2007

Apenas isto











Quando não há nada a dizer

Quando as palavras encravam na garganta

Quando as lágrimas não se soltam

Quando o grito se contém

Quando a vontade de fugir é adiada

Quando o espelho nos devolve apenas a solidão de um rosto

Quando tudo parece desencontrado

Quando o chão nos apela o olhar

E o céu se esquece de nós

Quando tudo parece estar perdido

Ou tudo está por descobrir

Ou tudo está ainda por viver.

Quando o silêncio nos devolve apenas…mais silêncio.


Quando as imagens nos retratam sem legendas


Quando te encontras contigo próprio

Quando consomes os teus demónios

E quando os anjos merecem morrer


É apenas isto.

Apenas isto.



Embrenho-me.




Escrito ao som de System of a Down

Quinta-feira, Setembro 13, 2007

Curtas 19 – Café com Açúcar











Lá vinha eu. Cheia de palavras, presas por todo o lado.

Até do cabelo me escorriam, como se tivesse acabado de sair do banho.

Levava comigo, o sorriso característico de quando marcamos um encontro.

Levava comigo, a boa disposição do costume e todas as histórias novas para te contar.

Cheguei-me ao pé de ti.

E antes mesmo de me sentar, antes mesmo de te dizer um “Olá!”……dei-te um beijo na boca…


Acabei de te amar neste beijo.

Desculpa-me se não te dei a oportunidade para dizer o mesmo.

Desculpa-me a cobardia.

Desculpa-me a unilateralidade do momento.

Desculpa-me o espanto desse teu olhar.


Desculpa-me tudo.


Mas, não me desculpes o beijo.


O beijo foi intencionado.

O beijo foi muito desejado.

Este beijo roubado, não to devolvo, nem permito que o dês a ninguém.

Este beijo é meu. Agora e para sempre.

Levo-o preso a esse teu olhar, de quem nada mais esperava de mim, que não fosse:

Hoje, pago eu o café!


A única diferença, é que o meu, hoje, já vem doce. Muito doce.



Escrito, enquanto a Putty tomava um...descafeínado.

Os inesperados andam aí, à procura de quem lhes queira sentir o sabor...


Terça-feira, Setembro 11, 2007

Ao Longe








Ao longe, ao longe,

Bate o pensamento na distância dos quilómetros.

E ao longe, ao longe, muito longe,

Cada vez mais longe,

O relógio torna-se cúmplice da ausência.

E nas margens da solidão,

Atropelam-se as memórias,

Dos beijos e dos abraços apertados.

De um querer ir e ficar,

De um não querer largar.

Dizes-me para olhar o céu,

E que lá te encontrarei.

E descubro que é mesmo verdade.

Que ao olhar o céu,

Nas minhas noites,

A tua presença em mim,

É sentida ao máximo.

Que não é mera poesia, o que dizes.

Que não é mera poesia, o que sinto,

Quando digo,

Que é lá que te encontro,

Quase que materializado naquela luz,

Naquele negro de céu que tanto amo.

E tu ao longe, longe, bem longe

Vais deixando mensagens,

E dizes que não me esqueces.

E eu,

Só te posso devolver as minhas palavras.

Estas, e as que construo no meu silêncio,

Ao mesmo tempo que te devolvo um sorriso,

E lanço um punhado de beijos na tua direcção.


Olha o céu.

Tens lá uma nova mensagem.

Mas nada que para ti,

Seja novidade.

Quinta-feira, Setembro 06, 2007

Curtas 18 – Um Punhado de Vida










Tu entraste e eu tinha mesmo acabado de sair.

Fechei a porta. Arrumei a bagagem que me coube por inteiro num só bolso.

O que levo comigo é um punhado de felicidade que quero guardar no peito e na memória dos meus dias.

Mas a minha vida é isto mesmo: abraços de encontros, acenos de despedidas.

E eu começo a achar, que vou ter de me despedir do amor. Mais um. Mais outro.

Começo a achar que nunca vou ter mais do que isto: um único bolso cheio; um único punhado de felicidade a repartir pelos dias de solidão.

Um punhado de beijos para lembrar.

Um punhado de abraços para a pele recordar.

Começo a achar, que as minhas partidas serão sempre assim: um aceno, um punhado, um bolso. Um bater de porta sem intenção de a voltar a abrir.

Mas, curiosamente, continuo a deixar a chave da porta para trás. Inconscientemente deverei pensar que, haverá alguém disposto a ficar com ela para sempre, sem acenos, sem despedidas.

Alguém disposto a ficar em mim e eu nele.

Alguém de quem vamos sempre querer um beijo, um abraço, um aconchego.

Alguém de quem não vamos querer esquecer, porque não nos queremos esquecer de nós próprios.

Alguém com quem fazer história.

Alguém que nos faça dizer, isto sim, valeu a pena ser vivido. Valeu a pena viver!

Para já, vivo na ilusão do tudo puder acontecer.

A chave fica para trás.

O bolso continuará cheio até o despejar.

A mão fechada, lembra-me que, mais cedo ou mais tarde, vou ter que a abrir.

E o desejo de um dia ser Feliz, permanece. E eu permaneço por aqui, ainda.

Não quero bolsos, nem réstias de memórias passadas.


Quero que o punhado de vida que me resta, seja preenchido.

Acho, que não é pedir muito.

...

É...?



Escrito, literalmente, à velocidade da Luz.

Terça-feira, Setembro 04, 2007

Poema







O que é o poema.


O poema só por si não existe.

O poema vazio, não é um poema.

É uma coisa descarnada e sem sangue.

Qualquer coisa fria e opaca.

O poema, para existir, tem de ter corpo.

Não um corpo qualquer.

O teu corpo.

Tem de te evocar.

Tem de te dizer um nome,

E um nome é a palavra Amor.

O meu poema és tu.

És tu.

Não no teu corpo mas no sentir.

És tu.

Não nos teus olhos, mas no que neles me faz mergulhar.

És tu.

Não nas tuas mãos mas no toque.

És tu.

Não nas tuas palavras, mas no seu significado.

O poema é tudo aquilo que nos transcende,

E que em nós repousa.

É tudo aquilo que é sentido,

E que em nós explode.

O poema não é saber-te do outro lado da linha,

Mas saber-te na mesma linha de pensamento.


O poema, não é um beijo de boca,

É o teu beijo com o meu.

Não é a tua voz,

Mas o seu eco quando fecho os olhos.

O poema não está na lua,

Não está nas estrelas.

Está no céu, espelho de ti,

Reflexo de mim.

O poema está onde tu estiveres.

No teu cheiro,

Nos teus passos,

No teu magnânime sorriso,

No que tu és.

O meu poema és tu,

Sem métrica, sem estrofes.

Sem rimas e sem regras semânticas.

O poema é um elo simples,

Feito a dois nós.

Resistentes ao tempo e à distância.

É algo permanentemente inacabado e imperfeito,

Como tu e como eu,

Que nos corre nas veias.

Há que sangrá-lo.

Fazê-lo jorrar,

Como quem grita.

Fazê-lo soltar-se,

Como um cavalo bravo.

É esta liberdade,

De não se ser de ninguém,

De não ser coisa nenhuma,

E de se ser tudo ao mesmo tempo.

Liberdade de eu querer ser o teu poema,

E a ti me entregar,

Mesmo em envelope rasgado.

O poema é isto e muito mais.

Basta sabê-lo.

Basta senti-lo.

E não é preciso escrevê-lo.

Basta-me tu existires.


Rabiscado pelos meandros de mim mesma.

Inspirado na Arte Poética de Zé Luis Peixoto, in A Criança em Ruínas

Porque as palavras são de todos e para todos.