Sexta-feira, Outubro 26, 2007

O Quanto de Ti em Mim











O que é de ti que é meu?

Não falo da tua carne nem das tuas posses

Falo-te do imaterial, do invisível

Do mundo dos sentires

E das emoções

Daquilo que não se diz

Não se escreve

E não se omite

O que é de ti, que posso chamar de meu

O que é de ti, que só a mim pertence

O que é de ti, que só em mim (te) encontras

O que é de ti, que só em mim (te) descobres

Quanto dos meus olhos te chamam

Quanto das minhas mãos te pedem

Quantos dos meus (re)cantos fizeste teus

Quanto da minha vida se mistura na tua?



( O que é de ti?

Quanto de ti? )



Não me fales

Olha-me

Não me toques no que não se diz

Não se escreve

E não se omite.



Sente-me-te!



Segunda-feira, Outubro 22, 2007

Curtas 20 – Esta Menina








Esta menina, que aqui se apresenta perante vós, tem crescido.

Não no tamanho e muito menos no cérebro!

Continua a ter mãos pequenas e a calçar o 37.

Veste M’s e de cintura um 36.


Mas esta menina tem crescido.

Crescido dentro dela própria e dentro dos outros.

Tem vagueado,

Discutido,

Ouvido,

Sonhado,

E tirado conclusões.

Acho que esta menina está a tornar-se numa mulherzinha à séria.

Daquelas que enfrentam o touro pelos cornos.

Daquelas que não se importam, e até fazem questão, de estar na linha da frente de uma qualquer causa ou batalha.

Daquelas que erguem bandeiras e ditam palavras de ordem, porque acreditam nelas.

E se acreditam, defendem-nas, com unhas e dentes, se for preciso.


Esta menina, que aqui se apresenta perante vós, cresceu.

Lutou para conseguir o que tem.

E continua a lutar por novas conquistas.

Ganhou uma voz interior, nova e madura.

Ama e é amada.

Aprendeu a chorar por coisas novas.

Tem um coração e sofre, como qualquer outra menina.

Aprendeu tantas e tantas coisas.

Desenhou novos sorrisos e com eles novos motivos para sorrir.

E descobriu que há quem goste dela, apenas porque sim.

Esta menina descobriu, que o Medo é um bicho papão.

Mas até o papão tem medo, mais que não seja, da nossa coragem.

E é isso.

Esta menina, aprendeu a palavra coragem, nas várias esquinas da Vida, por que tem passado.

E sabe que depois de uma esquina, vem sempre outra, tal como as curvas da estrada.

Descobriu que viver, se faz um dia de cada vez, e que o amor não se alimenta a ele próprio.

Descobriu a desilusão.

Descobriu que ser Pedra é bem pior que ser Vidraça.

Descobriu que não se deve julgar ninguém, porque não somos ninguém para isso.

Esta menina descobriu, que todos têm telhados de vidro e ela não é diferente de ninguém.


Esta menina está diferente.


Olho-me ao espelho, e está simplesmente, diferente.


Esta menina, cresceu.



(imagem ?)

Segunda-feira, Outubro 15, 2007

És Tu?













Sim…

Sinto uns batimentos estranhos, aqui, bem dentro de mim.

Não sei se de uma arritmia se trata.

Não sei.

Antes soubesse.

Antes soubesse que quem bate cá por dentro és tu.

(És tu?)

Que não é o coração,

Que não é o desespero do estômago vazio,

Que não é a tensão arterial ao rubro.

Mas a que porta me estão a bater?

Na porta da razão, não.

Nessa não, por favor. Tranquem-na! Tranquem-na a sete chaves! Que o Cão de Duas Cabeças lhe faça guarda!

Na porta do sentir?

Talvez…pode ser…recebo sempre tantas visitas por aí!

Na porta do coração?

Não creio…essa está permanentemente aberta. Alguém roubou a chave de uma porta sem fechadura, sem porta, sem chave. (Perceberam?)

Na realidade, o coração não tem portas, não tem entradas, nem saídas institucionais. Muito menos de emergência. É o salve-se quem puder…

Tem brechas, tem falhas, tem rupturas. E os habilidosos sabem! E como sabem!

(E como o sabes, não é?)

Qual espermatozóide à conquista do seu óvulo….

E de fertilidade, percebes tu…pois…pois percebes….

E eu, estou fecundada, em toda a minha pequena dimensão, tão insignificante, tão impura…tão…minha.

Estou fecundada por esse sentir de mil e uma portas trancadas e arrombadas.

Por essas mil e uma brechas a quem tomaram a Bastilha!

E eu pergunto-me, se este estremecimento que sinto, é o bater das portas arrombadas do meu ser, ao sabor do sentido proibido, ou se me estão a fechar as rupturas, a tapar as brechas…do coração.



(Chamaram a construção civil, e nada disseram?)


Se me reparem as falhas destas minhas finas paredes…

Só me resta colocar um letreiro a dizer:

Usado, mas Pintado de Fresco. Como novo!


Ps: tragam martelos, pregos e berbequins…

Não gosto nada de paredes uniformes, por muito finas e frágeis que sejam ou pareçam.

Se é para romper, quero que rache bem até ao fundo!


Mas voltando ao início, diz-me: és tu ou não, que me bates cá dentro?



(És tu?)




(imagem ?)

Terça-feira, Outubro 09, 2007

Um-Não-Quase












Tudo na vida tem um tempo.

O Sol

A Lua

Eu

Tu

A própria vida.

Tudo tem um tempo de ser, contado à milionésima.


Só lamento que não tenhamos tido essa mesma oportunidade, que praticamente, todas as coisas têm.

Tu e Eu.

Não Tu.

Não Eu.

Mas Nós.


Tudo na Vida tem um lugar.

Um lugar para nascer.

Um lugar para viver.

Um lugar para acontecer.


Só lamento que o tempo, que não é nosso, não tenha também um lugar.

Não um lugar comum e banal.

Um lugar teu e meu, mesmo que errado, onde o advérbio de tempo pudesse ocorrer, sem a interferência dos tempos e dos lugares dos outros, na vida de cada um de nós.


Os nossos advérbios estão desencontrados…


Mas, é nesse desencontro e nos intervalos dos lugares e dos tempos dos outros, que eu te vivo e te amo, qual gata vadia e faminta em busca de uma réstia de comida para lhe sossegar a fome do corpo.

É nos intervalos que os outros se esquecem e ignoram, que eu vivo contigo, que amo contigo, que sou tua e tu és meu.


Nesse não-tempo…

Nesse não-lugar…

Nesse quase-respirar…

Puramente desencontrados. Mas nossos.


Somente nesses intervalos…


E enquanto te sentires tão desencontrado de tudo o resto, como eu, eu não me importo de ter um não-tempo e um não-lugar.


Não me importo de, diariamente, ter um quase-respirar por ter tudo isso, contigo.


Nosso.


Um não-quase-nada-tão-pouco, mas todo-tão-nosso.


(rascunho em lugar-nenhum, de um intervalo qualquer de um não-tempo)

Terça-feira, Outubro 02, 2007

Ferimentos








Mãos feridas...

Mãos feridas…

Dos socos dados

Socos no estômago, para enganar a fome

Socos nos lábios, para desviar a sede

Socos na memória para a apaziguar

Socos na sorte que não chega

Socos no azar que não se faz sorte

Socos nas paredes, para que não se fechem sobre nós

Socos no coração, para que não pare


Desviar a atenção

Romper pele e carne

Sangrar

Até estancar


Muitos socos

Demasiados socos


Resumo dos nós

Dos dedos

Das mãos

Feridas

Dos meus longos dias

Sem ti.


(escrito, a meio de um curativo)
(imagem ?)