Quarta-feira, Dezembro 26, 2007

Curtas 24 - Amor de Guerra











O meu Amor foi à guerra e saiu ferido.

Matou saudades como quem mata inimigos.

Rendeu-se com o hastear da bandeira branca, erguida à primeira súplica do teu coração a que o meu não consegue resistir.

O meu Amor foi à guerra e matou saudades, como quem toma um qualquer posto de controlo.

Veio ferido e cansado, de peito aberto e alma ensanguentada. Mas continua a matar.

As saudades.


Não sei por que luto.

Não sei o porquê de continuar a lutar.

Não sei porque não te venço nem sou vencida.

E mesmo assim, sinto-me uma ganhadora, que tudo perde e nada tem, em nome de uma guerra silenciosa. A nossa.


E em qualquer guerra, muito se perde, tal como este soldado sem quereres, que perdeu o coração, algures entre as tuas mãos. Foi feito refém sem se tornar vitima. Apenas se adaptou à morada do teu peito, com vontade de não mais regressar.

E o meu Amor, lá vai matando as saudades, mesmo ferido. Mesmo sabendo que nunca as vai conseguir matar de vez, porque esta guerra silenciosa, e nossa, não tem fim à vista.

Queria de uma vez por todas entregar-te as minhas armas, se tu me deixasses.

Largar o peso da arma do meu ombro macerado e rasgar as divisas.

Queria deixar de assaltar o teu peito e dilacerar-te o sentir.

Queria unir territórios inimigos e constituir a Paz entre o meu mundo e o teu.


Queria entregar-me a ti.


Queria isso…

Queria tanta coisa…


Mas, não me sinto vencida nem vencedora.




Apenas Rendida.



(imagem ?)

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

Mata-me













Mata-me.


Diz-me que estou doente. Terminal.


Que o Amor apodreceu dentro de mim. Contaminou-me.


Infectou-me de mil e um sentimentos. Mais vivos do que eu.


Sentenciou-me com um milhão de razões. Que estou a cumprir.


Que o coração parou num ponto final. Vazio sem parágrafo nem travessão.


Que o sangue já não corre nas veias. Passeia-se.


Que as minhas mãos perderam o lugar. Do teu Corpo.


E as minhas pernas movem-se. Sem porquês.


Que o meu olhar já pouco fala. E pouco se sente.


É o melhor que tens a fazer. Mata-me!

Já nada provoco.

Perdi-me. De mim.


Pouco me sei, a não seres tu. Sobrevives-me.


E eu,

Apenas existo-me. Sem nada me existir.






R.B.

(foto: Dave Bowering)

Segunda-feira, Dezembro 10, 2007

Curtas 23 – Fazes-me Falta














Sinto-me uma pequena casa vazia.

Sem jarras, nem flores.

Sem música, nem aromas a incenso de baunilha e ópio.

Uma casa empoeirada, de móveis cobertos por lençóis brancos e objectos mascarados de jornal envelhecido.

Entro, e cheiro-lhe o pó. Apenas.


Pó…


De memórias, de quando abria a porta e dava de frente com o teu sorriso.


Pó.


Da música, das velas sobre a mesa, do gelado comido a dois.


Pó.


De quando sentia que tinha um coração a fazer sentido dentro do peito.


Pó.


De quando as minhas mãos tinham a missão de te percorrer o corpo.


Pó.


De quando no sofá, as minhas pernas se sobrepunham nas tuas, e as mãos, autónomas, se entrelaçavam.


Pó.


De quando esta casa, fazia sentido em existir.

De quando tão pequena, me parecia tão imensamente grande.

Época, em que tinha uma identidade. E eu também.

Hoje, não sei o que sou e sinto a minha casa perdida.

Caiada de saudade.

Paredes lascadas de histórias.

Janelas enegrecidas, pelo amontoar de sonhos, sem lugar nem tempo para acontecerem.

E tudo isto, sob um telhado, feito de nada.




Fazes-me falta…




Tal como as flores às jarras, mascaradas de jornal envelhecido.


Terça-feira, Dezembro 04, 2007

Curtas 22 - Partida sem Ida









Partiste.


Fizeste a mala, aniquilaste o passado, com sede do futuro.

As meias de renda, que sempre te fizeram companhia nas noites frias, foram a única coisa que contigo levaste.

Partiste.

Meia dúzia de recordações na pequena mala, de quem te possuía o corpo assiduamente.

Sem valor.

Mas que fizeste por merecer... pensam eles. Pensam sempre.

Todos eles. Os que te devolviam um sorriso nojento, no fim de te consumarem.

Tu devolvias o sorriso. Amarelo. Sem sentido, a não ser para receber os trocos despojados em cima da mesa-de-cabeceira de uma qualquer pensão reles.

Como eles.

Esses.

Homens sem rosto, de quem guardas apenas isso. Um sorriso apodrecido. E um bafo putrefacto que o pescoço ainda hoje guarda.

O pescoço guarda memórias, que o resto do corpo prefere esquecer. Nos pulsos furados pelos cigarros em brasa. Nos arranhões, nos golpes auto infligidos.


Partiste.

Fizeste a mala.

Calçaste essas mesmas meias de renda. Marca própria. Tua.

Sapatos vermelhos e a mini-saia que o teu primeiro chulo te deu. O teu pai.


Partiste.

Fizeste a mala.

Meia dúzia de quilómetros.

Descalça dos sapatos vermelhos que te mastigavam os pés.

Fizeste-te à estrada.

Partiste.


E a vida atraiçoou-te.


Partiste.

Mas nunca te deixaram ir.

Eles.

Esses.

Homens sem rosto, de sorriso amarelo e bafo putrefacto, de quem o teu pescoço ainda conhece histórias.


(ao som de Sigur Rós)