Terça-feira, Janeiro 22, 2008

Curtas 26 – Come Back to Me










Mais uma carta que te escrevo.
Mais uma carta que não sei se vais receber.
Mais uma carta, à qual não sei se me vais responder.

E eu, vou permanecendo deste lado da barricada, na fronteira entre o céu da tua presença e o Inferno da tua ausência, à espera que tu voltes.

Que tu, voltes para mim, com esses teus olhos azuis, imensos de mar e saudade.

E com essas tuas mãos, que a guerra sujou, mas que a memória das minhas ainda lhes reconhecem a maciez da pele e as intenções dos dedos a passearem pelo meu cabelo.


Volta…

Volta para mim…


Não permitas que o mar, da cor dos teus olhos, azede e nos divida.

Não deixes que o céu abra uma brecha no nosso horizonte.

E sobretudo, não desistas de voltar. De voltar para mim.


A espera dói. Como dói…


Por companhia, tenho as palavras por te dizer, que me choram todos os dias e todas as noites sobre a tua travesseira. Tenho os cigarros enfileirados na cigarreira, que um a um, vou matando, sem piedade. Tenho a memória do teu último olhar, de quem deixa o Mundo para trás e se vê, sem escolha possível, obrigado a entrar no Inferno. Esse olhar fundo, de quem não sabe quando volta, como volta ou se sequer volta.

Eu, encho-me todos os dias de esperança, com o teu último Amo-te, para sempre

E tu, sobre os ombros carregados da bagagem, levaste uma súplica. A minha.


Sobrevive, meu Amor. Sobrevive!


E Volta...

Volta para mim…




Curta baseada no filme Expiação de Joe Wright

que simplesmente...adorei...


(imagem do mesmo filme)

Terça-feira, Janeiro 15, 2008

Dúvida























Cá por dentro,

Estranha-me a pele que um dia foi minha.

E os poros já não obedecem aos gritos.

Nem o encrespar dos pêlos ao frio da noite.

Toco-me,

E sinto-te como um manto de elasticidade.




Diz-me…





Quando foi que a tua epiderme encarnou na minha?



Segunda-feira, Janeiro 07, 2008













A Felicidade, dói ou magoa?



Quarta-feira, Janeiro 02, 2008

Curtas 25 - Inverno de Mim













É Inverno desolador. Lá fora e cá por dentro. Cá por dentro chove. Lá fora, apenas um frio muito frio, estranho aos dias e à pele.

É Inverno na minha vida.

Um Inverno que nunca quis conhecer.

Que sempre tentei ignorar. E hoje, agora, chove cá por dentro.

Lá fora, as folhas secas giram em rebuliço, como se os espíritos anunciassem mais uma partida.

A tua.

A tua partida e a anunciação de um longo e pesado Inverno de mim.

Nem sei se me apetece chorar. Nem sei se me devem sequer, tentar consolar.

Olho os rostos que me devolvem aquele olhar de Inverno, mas mesmo assim, é um Inverno diferente. É um Inverno sem o trago da bebedeira dos sentires. E é isso que eu tenho. Uma enorme bebedeira, onde tudo o que sou e conheço, bate nas paredes, agora ocas, desta massa de carne a que chamam de corpo. Não sei se devo chorar. Não sei sequer quem devo consolar, quando eu própria sinto os meus sentidos inconsoláveis.

Não sei o que posso vir a sentir a partir de hoje, deste interminável e consciente momento, em que a minha alma agoniza e o meu corpo, simplesmente, não reage. Só este Inverno, tenho a certeza que é permanente. Este frio na pele, este gelo no peito e este desconforto do olhar para o resto da vida.

Suponho que congelei as lágrimas que não querem cair por ti. Permanecem cá por dentro, onde se faz frio. E os espíritos, do lado de fora, retomam o seu ritual, compassado.

Recebo abraços quentes e palmadinhas nas costas, e entre os rostos de consternação, eu não me consigo rever em nenhum deles. Não são frios o suficiente. Não têm a mesma perda, a mesma embriaguês, o mesmo olhar perdido para o resto da vida.

Tu partiste, e eu ainda não acredito. Não posso acreditar porque não posso conceber a minha presença num Mundo, onde a tua existência, não passa de uma simples memória. A minha memória.

Que sentido faz isto?

Que sentido faço eu agora, sem ti?

No fundo, parte de mim, continua à espera que uma alma generosa me diga que tudo foi um engano e que a tua partida foi adiada para um tempo incerto.

Mas também sei, que isso é apenas esta maldita embriaguês a falar. Porque, apesar de tudo me soar a um terrível pesadelo, tenho esta certeza dilacerante de que não voltarei a ver o teu sorriso, nem a sentir o conforto umbilical do teu abraço, nem a ouvir o teu tom de voz, nem a sentir a candura do teu olhar.


Não voltarei, porque tu não voltarás.

E o que continuo a sentir, é este Inverno desolador. Apenas e só...

Lá fora e cá dentro.

Estranho aos dias e à pele.



(... o que farei eu da Primavera...)



(foto: 1000imagens - Paulo Moreira)