Terça-feira, Março 11, 2008

Curtas 28 - Ruas da Saudade












É por entre os paralelos tristes das ruas da saudade que eu te encontro.

Junto das paredes húmidas do choro de quem não se consola simplesmente com a memória da pele, que não se gasta, mas se regenera a cada beijo, a cada sopro, a cada sussurro.

Encontro-me sozinha a vaguear de porta em porta, à espera de um sinal que te anuncie.

E vejo-me, pela minha própria sombra, um tanto vazia de mim, simplesmente porque não te tenho para preencher o resto que me falta.

Até que, esporadicamente, sem aviso prévio, sem notificação, tu surges, e espreitas-me no sobressalto do coração, numa dessas esquinas sujas da ausência, calma e pacificamente, como quem tem todo o tempo do Mundo para mim, para nós.

Chegas cheio de ti mesmo, a transbordar do que eu tanto reclamo e que tanto quero para mim.

E tu sabes o que isso significa. Tu sabes o que é esse encontro de almas, de poros e se suor, de olhares e cumplicidades.

Tu sabes e não queres esquecer nunca.

Queres vivê-lo sempre. Para sempre, como qualquer humano que se sinta assim mesmo, humanamente sedento por essa loucura a que chamam de paixão. Como tu e como eu. Viciados e presos um no outro, como um elo de aço, inquebrável.

E é por entre estes paralelos tristes e sós, destas calçadas e vielas a que chamam de saudade que nos encontramos e nos cruzamos pelo corpo e pelo espírito, em nome do amor que nos une como se de um sacramento inviolável se tratasse, transformando qualquer sonho intangível a todos os outros, assim, humanos, como tu e como eu.

É por aí que nos encontramos, nos becos, nas vielas, nos recantos escuros, durante o dia calcorreados por um milhão de pés incautos, sem saberem do testemunho de cada paralelo, de cada parede, de cada janela fechada sobre o mundo. O Mundo dos outros.


E nós conhecemos bem…

Conhecemos bem, a magia da Saudade e sobretudo a terapia de a matar, devagarinho, aos poucos e sem pressa, mesmo que esporadicamente, sem aviso prévio e sem notificação.



(imagem ?)