Quinta-feira, Agosto 28, 2008

Curtas 34 - Inspiração da Saudade













A primeira coisa que faço quando acordo, é olhar no espelho em frente, à procura dos restos do teu reflexo. E ainda está lá. Impresso nas saudades com que tento lavar a tua ausência.

Ouvi dizer que a Saudade tem a característica de nos roubar o derradeiro descanso de um ponto final.

Fiquei intrigado e com a dúvida se essa pessoa me conheceria.

E foi um alívio saber que alguém, mesmo sem me conhecer e sem nada saber da minha realidade, compreende.

Compreende verdadeiramente o que são as reticências da espera e as interrogações do porquê.

Da falta de um reflexo ao lado do nosso, quando acordamos. Da falta de um rosto em frente ao nosso, na mesa de um qualquer café.

Do silêncio dos passos no soalho e da roupa amarrotada no chão do quarto-de-banho.

Sinto tanto a tua falta.

Até de tudo aquilo que me desagradava em ti. Do teu riso de troça a ecoar por todas as divisões, quando, por algum motivo, me aborrecia contigo.

E tento não lembrar de tudo aquilo que me dói: tu, aconchegada em mim durante as tantas noites que passámos juntos. Agora, apenas o teu reflexo que a minha memória teima em imprimir nas coisas, nos locais, em mim. Ainda em mim, apesar de ter guardado todas as tuas fotografias. Apesar de ter guardado todos os pertences que deixaste para trás, propositadamente ou por esquecimento. E nem quero acreditar que os deixaste na pressa de fugires.

Apesar de te ter “arrumado” dentro de uma caixa, o teu reflexo não me deixa.

Ou então sou eu que não o quero deixar, mesmo sabendo que nada fiz para partires, a não ser amar-te da única forma que o sei fazer. Intensamente, para que nunca haja lugar para arrependimentos e para um único “se”.

E tento a todo custo perceber o teu porquê, enquanto vou inspirando e expirando os meus dias de vazio. Enquanto por dentro estou partido em mil e um cacos.

Gostava de poder enterrar a memória do teu sorriso e das tuas mãos pequenas, que cabem por inteiro nas minhas. Gostava de esquecer o teu nome dentro do meu. Os teus beijos perdidos nos meus. O teu corpo mergulhado no meu. As promessas e as juras que lia nos teus olhos.

E gostava que me devolvesses o que fui. Por inteiro.


Podias voltar apenas para isso.

Para pores um ponto final à minha Saudade.



A inspiração, veio d'O Bilhete, Filipe Paixão.




(autor imagem ?)

Segunda-feira, Agosto 18, 2008

Curtas 33 - (in)Decisões








Hoje olho para trás e vejo como fui gerando e desenvolvendo o sentimento.

Ao ponto de chegar a este mesmo ponto, de que nada mais posso fazer por ele.

Maturou até ao limite que me foi imposto, como se depois de nove meses, nada me nascesse.

E resta-me vivê-lo assim, apenas por dentro.

E agora, que era suposto ter chegado o momento de uma decisão, continuo sem (me) decidir.

Não posso voltar para trás, nem posso ir mais adiante sem me esbarrar de frente com a realidade.

E essa realidade, que a via como uma barreira real mas invisível aos olhos do coração, hoje já não é bem assim.

Hoje já não me contento apenas com isso, já nada me basta.

Hoje vejo-a como um muro intransponível, apesar de me dizerem que nada é impossível.

Desculpem discordar.

Desculpem se o sentido da razão me diz o contrário.

Desculpem se tenho o pensamento mais frio de sempre, e os pés bem enterrados no chão, outra vez.

E a gravidade custa...

Hoje digo que a realidade já não dói como ontem.

Digo-vos que a realidade já não me consome os dias tristes de ausência.

Agora os dias são apenas isso mesmo: tristes, e a realidade é apenas isso mesmo: a realidade.

E há que viver com ela.

Pelo menos, quanto a isto já me decidi.



(Autor da imagem: desconheço...)