Curtas 39 – Por dentro

E chega aquele momento em que de dois passamos a um. De quatro mãos fazemos apenas duas e de um amontoado de pele, saliva e poros, um único deleite.
O momento em que nos confinamos às paredes do que somos, porque juntos misturamo-nos por dentro delas e pintamos e repintamos o Amor, criando uma tela de mil e um sentires numa plenitude inconfundível, porque apenas a nós pertence.
E deixamos que o nosso melhor nos vença os sentidos, cansados do que vem de fora, e resvale para lá do que somos.( E somos tanto. Somos tanto mais! )
Mergulhamos bem lá por dentro para chegar a todas as fendas e brechas até ao atingir do ponto. Daquele fugaz ponto que permite o descontrolo do teu olhar no meu.
O desvario da tua boca na minha e o êxtase trémulo que nos percorre o corpo ansioso.E do teu suor faço o meu, da tua língua o meu desatino e do teu beijo a minha entrega.
Transmutamo-nos em altar um do outro, fazendo de ti o meu sangue e eu, o teu corpo, elevando a carne ao espírito em perdição por tragos de vida que raramente tocamos. E é por dentro que nós nos somos verdadeiramente.
( E somos tanto. Somos tanto mais! )
E continuamos. Juntos. Lado a lado. De mãos dadas. Bem por dentro.
E insistimos em mergulhar de olhos fechados.
E perseguimos na busca das brechas onde nos perdemos, reinventando a rendição do toque de dedos por toque de pele.
E persistimos um no outro, mesmo quando o vazio nos arrasta. Mesmo quando a solidão se perpetua por dentro, nos risca as paredes e arranca soalhos.
E por dentro, persistimos um no outro, sabendo que lá fora, lá fora os sentidos cansam.
E somos tanto. Cada vez mais.
Sem Paredes não há Cor

As palavras tal como o Amor não têm apenas cor.
Têm histórias, cheiros e momentos.
Têm o nosso espectro e reflexos.
Têm sombreados e intenções estampadas em cada recanto.
Têm nomes e datas em cada olhar de soslaio.
Têm noites feitas num beijo e um nascer do dia num abraço apertado.
Têm o Eu e o Tu, retocado nos limites intersectados das linhas.
Mas no fundo não interessa muito a cor, muito menos se existe um papel de parede.
O que interessa, na realidade, é a consistência do material, e a forma como conseguimos manter as cores unidas, sem desbotar, sem se dissolverem umas nas outras, e sobretudo sem as largar.
As palavras, tal como o Amor, precisam do corpo. Da substância. Dos alicerces.
De que interessa a cor, se no final, as paredes que tudo amparam, não passam de uma fina camada de estuque, vulneráveis ao tempo e prontas a descascar.
E dessas paredes, de aparência consistente, infelizmente não faltam ao alto. E por mais que se mude a cor, o estuque é sempre o mesmo, o descasque inevitável e a ruína iminente.
E há quem nem se importe…
E há quem consiga viver assim…
Esperando que lá por dentro, sob a cor do estuque, não se enferruje de vez.
Texto re-pintado
Curtas 38 - Sentido Obrigatório

Há um sentido que deve ser sempre seguido. Aquele. O primeiro. O que nos vem imediatamente do lugar a quem mais ninguém pertence. De nós.
Aquele que mesmo proibido se faz obrigatório. Que mesmo longo se faz curto. Que de tortuoso se faz o mais especial e memorável.
Que de errado se faz certo e sabemos que magoa.
Que dói. Que fere.
Que tanto nos sufoca como, lentamente, nos vai deixando respirar, como um tormento que não deixa de ser bom e saboreado.
Que nos redesenha as linhas das mãos e a sensação dos apertos dos abraços.
Que nos arranha o futuro e arruma tracejados. Que nos muda sinais e trajectos sem aviso prévio.
Que nos comanda as mãos ao toque e a boca ao beijo.
O corpo à verdade do desejo. Molhado, áspero.
Desesperado. (In)contido.
É o sentido de um caminho que só se faz uma vez na vida. Que se entranha e vai ficando, aninhado em nós, qual besta, qual anjo. Que nos desperta para um único momento.
Em nós.
É o sentido que nós percorremos.
É o sentido que nós fazemos.
É o sentido sentido!
A doer. A magoar.
Aquele. Único. Inigualável.