Modus Operandi
Para escrever é preciso ter a alma abraçada aos dedos. É preciso ter o coração desarrumado, perdido do próprio peito. Ter a alma em peregrinação e em sangue de tão longa a caminhada. É fundamental açoitar o espírito, ter os sentidos perdidos da pele ou embrenhados por cada poro. Para escrever é preciso estar noutro lado. Olhar além do que vemos e fechar os olhos e sermos outros para além de nós. É preciso ter a alma abraçada aos dedos! A alma desajeitada! As mãos rudes e impacientes! É preciso amar como nunca! Rasgar o peito por dentro sem que ninguém perceba! Apaixonar-se por cada palavra, por cada vírgula, por cada espaçamento entre uma reticência! É preciso chorar convulsivamente e rir desesperadamente. Ter um ímpeto, um apelo sobre-humano, um sopro no ouvido, um grito que se possa dizer. Escrever é ter tudo isto de uma só vez. Sem dotes de artista, sem dons miraculosos. Não se pode escrever de outra forma, porque, simplesmente, não existe mais nenhuma. Escrever é apenas isto. É a...