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A mostrar mensagens de abril, 2009

Curtas 39 – Por dentro

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E chega aquele momento em que de dois passamos a um. De quatro mãos fazemos apenas duas e de um amontoado de pele, saliva e poros, um único deleite. O momento em que nos confinamos às paredes do que somos, porque juntos misturamo-nos por dentro delas e pintamos e repintamos o Amor, criando uma tela de mil e um sentires numa plenitude inconfundível, porque apenas a nós pertence. E deixamos que o nosso melhor nos vença os sentidos, cansados do que vem de fora, e resvale para lá do que somos. ( E somos tanto. Somos tanto mais! ) Mergulhamos bem lá por dentro para chegar a todas as fendas e brechas até ao atingir do ponto. Daquele fugaz ponto que permite o descontrolo do teu olhar no meu. O desvario da tua boca na minha e o êxtase trémulo que nos percorre o corpo ansioso. E do teu suor faço o meu, da tua língua o meu desatino e do teu beijo a minha entrega. Transmutamo-nos em altar um do outro, fazendo de ti o meu sangue e eu, o teu corpo, elevando a carne ao espírito em perdição por...

Sem Paredes não há Cor

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As palavras tal como o Amor não têm apenas cor. Têm histórias, cheiros e momentos. Têm o nosso espectro e reflexos. Têm sombreados e intenções estampadas em cada recanto. Têm nomes e datas em cada olhar de soslaio. Têm noites feitas num beijo e um nascer do dia num abraço apertado. Têm o Eu e o Tu, retocado nos limites intersectados das linhas. Mas no fundo não interessa muito a cor, muito menos se existe um papel de parede. O que interessa, na realidade, é a consistência do material, e a forma como conseguimos manter as cores unidas, sem desbotar, sem se dissolverem umas nas outras, e sobretudo sem as largar. As palavras, tal como o Amor, precisam do corpo. Da substância. Dos alicerces. De que interessa a cor, se no final, as paredes que tudo amparam, não passam de uma fina camada de estuque, vulneráveis ao tempo e prontas a descascar. E dessas paredes, de aparência consistente, infelizmente não faltam ao alto. E por mais que se mude a cor, o estuque é sempre o mesmo, o descasque inev...

Curtas 38 - Sentido Obrigatório

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Há um sentido que deve ser sempre seguido. Aquele. O primeiro. O que nos vem imediatamente do lugar a quem mais ninguém pertence. De nós. Aquele que mesmo proibido se faz obrigatório. Que mesmo longo se faz curto. Que de tortuoso se faz o mais especial e memorável. Que de errado se faz certo e sabemos que magoa. Que dói. Que fere. Que tanto nos sufoca como, lentamente, nos vai deixando respirar, como um tormento que não deixa de ser bom e saboreado. Que nos redesenha as linhas das mãos e a sensação dos apertos dos abraços. Que nos arranha o futuro e arruma tracejados. Que nos muda sinais e trajectos sem aviso prévio. Que nos comanda as mãos ao toque e a boca ao beijo. O corpo à verdade do desejo. Molhado, áspero. Desesperado. (In)contido. É o sentido de um caminho que só se faz uma vez na vida. Que se entranha e vai ficando, aninhado em nós, qual besta, qual anjo. Que nos desperta para um único momento. Em nós. É o sentido que nós percorremos. É o sentido que nós fazemos. É o sentido s...