Mensagens

A mostrar mensagens de 2011

Ano Novo

Já não tenho grandes pedidos para novos anos, porque a vida ensinou-me a não fazer grandes planos. Tenho desejos, sim, muitos. Alguns, se calhar, até impossíveis, mas continuam a perdurar em mim, vivos e de sangue quente, apesar de silenciosos. E eu, que uso tantas vezes o sangue e o silêncio nas minhas palavras, neste não poderia ser diferente. Por falar em diferente, é isso que quero para o novo ano, quero dias diferentes aos do ano que está prestes a terminar. Já não peço mais do que isso. Aos caros amigos, leitores deste espaço (cada vez mais vazio), desejo um bom ano para todos.

Teatro

Imagem
Vamos teatralizando a vida como se nada nos importasse. Como se tudo nos passasse ao lado do olhos, do coração, ao lado daquilo que somos. Vamos fazendo de conta. Porque afinal, isto é só um livro, uma história muito mal contada, e nós, personagens mascaradas que nunca chegam a morrer.

vómito

Abro a boca e espalho silêncios infecundos por todas as divisões,  como se o silêncio pudesse, de alguma forma, apaziguar-me a alma que deixou de crescer.  Sinto que a vida esventrou-me. Saiu de mim apressadamente como quem foge do medo e do perigo. Parou num beco da existência e mergulhou a fundo num canto sujo qualquer, esgueirando-se por um intervalo do mundo. Hoje sou eu que vomito silêncios, ao mesmo tempo que a alma deambula pelos sítios onde onde dia cantou, pelos sítios onde a minha boca já não sabe chorar.

dúvida

A poesia é tão pessoal para quem a escreve, quanto impessoal para quem a lê. Se eu disser cansa-me não saber esperar por ti , o que significará isto para quem não sabe sentir com os olhos?

Luci

Nesta próxima sexta-feira, casa-se um dos meus melhores amigos. Casa-se no dia em que eu também casei. Já o conheço há quase 20 anos, éramos nós uns adolescentes ranhosos que adoravam jogar basket e foi o basket que nos uniu. Dos amigos e colegas da altura guardo muito pouco e trago muito pouco. Mas dele não. Esteve comigo em situações criticas. Conheço-o como poucos, deixem-me que diga isto com toda a legitimidade. Passamos por momentos muito maus e momentos muito bons. Crescemos juntos em vários sentidos e hoje já estamos tão crescidos... Fumámos juntos e às escondidas. Ele guardava o maço de Marlboro no saco da raquete de ténis na mala do seu Opel Corsa preto (sem direcção assistida!) e com uma botinha azul e branca pendurada no espelho retrovisor. E aos fins-de-semana, lá iamos nós, para o Café do Cais, na Ribeira, tomar o nosso Café com Natas e um cigarrinho. Ainda me lembro do dia em que tirou a carta e de andar a medo comigo pelas ruas do Porto. Ainda me lembro quando ingressou ...

des(virtudes)

Imagem
Não se pode esperar por aquilo que não se sabe se vem ou quando vem, e esperar ou saber esperar nem sempre é uma virtude. É tantas vezes uma maleita, que devagarinho e em silêncio, nos vai roendo a carne até chegar aos ossos, vulnerabilizando-nos até ao ponto fulcral da fractura. E ficamos expostos. E sabemos que a carne que um dia nos amparou do rasgo da dor, nunca mais voltará a crescer. E doemo-nos. Até à inconsciência do limite da própria dor. 2011, Setembro 02

Resistência

Imagem
O meu coração é resistente, meu amor. Já resistiu a tanto. Já lacerou tanto. Já esticou e fissurou tanto até partir sem grande reparo. Remendo após remendo, alfinetada atrás de alfinetada, o meu coração resiste, meu amor. Aprendeu a lidar com todo o tipo de dor, com o julgamento, com a (in)sensibilidade. Tenho um coração de guerra, sofrido e violentado. Mas resiste, meu amor.  O meu coração resiste neste peito rasgado. Até ao meu último sopro de vida.

Curtas 42 - Hora de Rua

Imagem
Há nesta hora de rua, pedaços de muito e de nada que me perturba. Há um riso louco e rasgado de quem me olha e diz que vê, mas não sabe o que vê, nem tampouco o que (me) olha. Há este fardo de sombras de quem curva as esquinas caídas de gente, de passos fincados no cimento, como quem força um destino. E há um súbito murmúrio de quem fica, que se cruza e se toca, num breve bater de dedos com dedos. Há nesta hora de rua, quem me queira prender ao vento sujo de pó, aos paralelos desalinhados que estreitam ruelas cheias de fadiga, de homens e mulheres que desfazem camas por dinheiro. E eu subo e desço ruas, cruzo passeios de um lado para o outro, e tento escapar às paredes escorregadias da cidade. Não quero que me prendam dentro delas. Não quero ser mais um louco. E mergulho os olhos no silêncio, e sou música que me embala. Sou diferente, não sou a loucura que me persegue. Sou a própria cidade construída por dentro e sem esquinas onde cair. Há nesta hora de rua, pe...

Matando sem morrer

Imagem
engulo a língua, a boca, os olhos e ouvidos meto as mãos pelo avesso dos forros, mergulho pernas e braços esquecidos mordo e mastigo-me, até deixar de doer perco as palavras, os sons, o tacto, sentidos até finalmente conseguir esquecer recolho-me por inteiro deste lado de dentro enquanto por fora, devagarinho vou-me lentamente matando sem morrer

Paridos

Há quem desrespeite. Há quem despreze. Aquelas mulheres que abriram as pernas para os parirem. A muito custo. Com muita dor. Sem anestesias e cortes a sangue frio. Com prognósticos de virem a ficar ali mesmo por levarem uma gravidez até ao fim. E hoje estão cá todos, os paridos e quem os pariu. E hoje parecem estranhos uns dos outros. Desconhecidos no próprio sangue que os une. Este texto é uma homenagem à grandeza da minha mãe, que teima em dizer que não é nada nem ninguém. Mas eu digo que pode passar muita gente pela nossa vida, mas Mãe, daquelas que realmente são dignas dessa qualidade, só há uma. E eu tenho muito orgulho em ter sido parida por uma grande mulher, em todos os sentidos e mais algum, se o houver. A sangue frio, com dores insuportáveis e mais uma vez, com péssimos prognósticos. Mas cá estamos, eu e ela, e quem continuamente dá o desprezo na cara como se de um beijo se tratasse.

Dissolvente

Imagem
Tenho a acidez dos afectos a invadir-me o peito. E qualquer dia morrem-me de vez, estrangulados pelo cansaço. E o cansaço cansa tanto, que já não lhe aguento o peso, que do coração vai invadindo os olhos. E o panorama muda por completo. E a vida passa a ser vista de forma tão diferente. Hoje não me apetece sentir mais nada que não seja sentir que já nada sinto. (imagem: representação de Sísifo. Desconheço o autor)