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A mostrar mensagens de 2015

Palavras inteiras

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Há palavras inteiras que são verdadeiras casas ao abandono. Palavras que um dia tiveram lustres, cheias de luz cristal e de reposteiros imponentes que pingavam vida até ao chão. Há tantas palavras inteiras que deixaram de sair da minha boca por já não ter sítio por onde entrar. Tudo  são portas fechadas, cadeiras e pratos vazios e mesas onde já só se bebe do vício e não da sede.  E eu tenho uma sede inteira. Inteira de mim e de tudo o que de inteiro pode haver. Abro a boca e apenas um grito mudo sem resposta.  Abro a porta e apenas o vazio pintado de flores secas. Do chão saltam línguas de fogo extinto que se desfazem em cinza. Tudo é pó de dias felizes, de tempos em que as palavras tinham eco e sítio onde  adormecer. E penso que já ninguém quer partilhar a mesma mesa que eu, beber um trago do meu copo sem fundo.  Há palavras inteiras que morrem sem nunca crescer. Minguam na minha boca de onde apenas tenho sede, vontade inteira maior ...

Embalo de Mar

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Depois de ti, agigantam-se tempestades. Pássaros erguem-se assustados, nuvens adensam-se engolindo o céu, o mar revolta-se na minha direcção. E nunca o mundo foi um lugar tão só.  Depois de tudo, o meu peito é ninho de pássaros tristes, um tecido vivo à sorte dos abraços do vento que o desmembra junto com memórias que um dia a vida fez morada.       E é tudo tão longe agora que não estás. Há tanto tempo que faço o meu próprio velório e bebo da dor do meu luto. Quando morri depois de ti, ninguém deu conta. Ninguém percebeu que quem cá ficou é apenas uma ilusão que deixou de cantar a vida para apenas adormecer na tua morte. Tu não estás. Eu deixei de estar. E o mundo nunca foi tão grande de ausência. Há coisas que não consigo ignorar, quando as lágrimas são balas que esperam no céu ou quando o mar que te levou me levanta a mão. E com dedos de gume desfaço ondas em espuma que morrem tristes aos meus pés. E as que voltam são grito, todas a...

Há ainda esta casa

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Ainda há esta casa que eu um dia habitei. Todos os cheiros, todos os sons. Há ainda esta casa, mas já nada nela habita, excepto  o choro profundo dos pássaros, que se vão abrigando do negro da noite. Há ainda esta casa. Há ainda esta casa aninhada no meu peito. Há ainda a memória de quando éramos todos dentro dela, de quando os azulejos cantavam vida e as cadeiras rangiam de vozes sobrepostas. Há ainda esta casa, e há agora tanto vazio. As paredes desmaiadas de silêncio e pó. Móveis tristes, parados no tempo. Espectros que esperam que o tempo passe quando o tempo já há muito parou. Há portas que por mais que se abram, estarão para sempre fechadas. Mãe, há ainda esta casa. Mas a minha morada serás sempre tu. Sempre tu e o cheiro das flores que guardavas no peito. 2015 Janeiro 27