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A mostrar mensagens de dezembro, 2007

Curtas 24 - Amor de Guerra

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O meu Amor foi à guerra e saiu ferido. Matou saudades como quem mata inimigos. Rendeu-se com o hastear da bandeira branca, erguida à primeira súplica do teu coração a que o meu não consegue resistir. O meu Amor foi à guerra e matou saudades, como quem toma um qualquer posto de controlo. Veio ferido e cansado, de peito aberto e alma ensanguentada. Mas continua a matar. As saudades. Não sei por que luto. Não sei o porquê de continuar a lutar. Não sei porque não te venço nem sou vencida. E mesmo assim, sinto-me uma ganhadora, que tudo perde e nada tem, em nome de uma guerra silenciosa. A nossa. E em qualquer guerra, muito se perde, tal como este soldado sem quereres, que perdeu o coração, algures entre as tuas mãos. Foi feito refém sem se tornar vitima. Apenas se adaptou à morada do teu peito, com vontade de não mais regressar. E o meu Amor, lá vai matando as saudades, mesmo ferido. Mesmo sabendo que nunca as vai conseguir matar de vez, porque esta gue...

Mata-me

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Mata-me. Diz-me que estou doente. Terminal. Que o Amor apodreceu dentro de mim. Contaminou-me. Infectou-me de mil e um sentimentos. Mais vivos do que eu. Sentenciou-me com um milhão de razões. Que estou a cumprir. Que o coração parou num ponto final. Vazio sem parágrafo nem travessão. Que o sangue já não corre nas veias. Passeia-se. Que as minhas mãos perderam o lugar. Do teu Corpo. E as minhas pernas movem-se. Sem porquês. Que o meu olhar já pouco fala. E pouco se sente. É o melhor que tens a fazer. Mata-me! Já nada provoco. Perdi-me. De mim. Pouco me sei, a não seres tu. Sobrevives-me. E eu, Apenas existo-me. Sem nada me existir. R.B. (foto: Dave Bowering)

Curtas 23 – Fazes-me Falta

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Sinto-me uma pequena casa vazia. Sem jarras, nem flores. Sem música, nem aromas a incenso de baunilha e ópio. Uma casa empoeirada, de móveis cobertos por lençóis brancos e objectos mascarados de jornal envelhecido. Entro, e cheiro-lhe o pó. Apenas. Pó… De memórias, de quando abria a porta e dava de frente com o teu sorriso. Pó. Da música, das velas sobre a mesa, do gelado comido a dois. Pó. De quando sentia que tinha um coração a fazer sentido dentro do peito. Pó. De quando as minhas mãos tinham a missão de te percorrer o corpo. Pó. De quando no sofá, as minhas pernas se sobrepunham nas tuas, e as mãos, autónomas, se entrelaçavam. Pó. De quando esta casa, fazia sentido em existir. De quando tão pequena, me parecia tão imensamente grande. Época, em que tinha uma identidade. E eu também. Hoje, não sei o que sou e sinto a minha casa perdida. Caiada de saudade. Paredes lascadas de histórias. Janelas enegrecidas, pelo amont...

Curtas 22 - Partida sem Ida

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Partiste. Fizeste a mala, aniquilaste o passado, com sede do futuro. As meias de renda, que sempre te fizeram companhia nas noites frias, foram a única coisa que contigo levaste. Partiste. Meia dúzia de recordações na pequena mala, de quem te possuía o corpo assiduamente. Sem valor. Mas que fizeste por merecer ... pensam eles. Pensam sempre. Todos eles. Os que te devolviam um sorriso nojento, no fim de te consumarem. Tu devolvias o sorriso. Amarelo. Sem sentido, a não ser para receber os trocos despojados em cima da mesa-de-cabeceira de uma qualquer pensão reles. Como eles. Esses. Homens sem rosto, de quem guardas apenas isso. Um sorriso apodrecido. E um bafo putrefacto que o pescoço ainda hoje guarda. O pescoço guarda memórias, que o resto do corpo prefere esquecer. Nos pulsos furados pelos cigarros em brasa. Nos arranhões, nos golpes auto infligidos. Partiste. Fizeste a mala. Calçaste essas mesmas meias de renda. Marca própria. Tua. Sapatos ve...