Há ainda esta casa
Ainda há esta casa que eu um dia habitei. Todos os cheiros, todos os sons. Há ainda esta casa, mas já nada nela habita, excepto o choro profundo dos pássaros, que se vão abrigando do negro da noite. Há ainda esta casa. Há ainda esta casa aninhada no meu peito. Há ainda a memória de quando éramos todos dentro dela, de quando os azulejos cantavam vida e as cadeiras rangiam de vozes sobrepostas. Há ainda esta casa, e há agora tanto vazio. As paredes desmaiadas de silêncio e pó. Móveis tristes, parados no tempo. Espectros que esperam que o tempo passe quando o tempo já há muito parou. Há portas que por mais que se abram, estarão para sempre fechadas. Mãe, há ainda esta casa. Mas a minha morada serás sempre tu. Sempre tu e o cheiro das flores que guardavas no peito. 2015 Janeiro 27