Curtas 42 - Hora de Rua
Há nesta hora de rua, pedaços de muito e de nada que me perturba. Há um riso louco e rasgado de quem me olha e diz que vê, mas não sabe o que vê, nem tampouco o que (me) olha. Há este fardo de sombras de quem curva as esquinas caídas de gente, de passos fincados no cimento, como quem força um destino. E há um súbito murmúrio de quem fica, que se cruza e se toca, num breve bater de dedos com dedos. Há nesta hora de rua, quem me queira prender ao vento sujo de pó, aos paralelos desalinhados que estreitam ruelas cheias de fadiga, de homens e mulheres que desfazem camas por dinheiro. E eu subo e desço ruas, cruzo passeios de um lado para o outro, e tento escapar às paredes escorregadias da cidade. Não quero que me prendam dentro delas. Não quero ser mais um louco. E mergulho os olhos no silêncio, e sou música que me embala. Sou diferente, não sou a loucura que me persegue. Sou a própria cidade construída por dentro e sem esquinas onde cair. Há nesta hora de rua, pe...