Carta aberta
Pai. Se a desilusão tivesse um nome, seria o teu. Ainda é o teu. Cinco anos depois, é ainda isto que dói cá dentro. A desilusão. Coisa triste que me percorre o sangue. Que envenena a memória e que lamenta tudo o que deveria ter sido, mas não foi. E o teu nome está em praticamente tudo o que defino por desilusão. Palavra (muito) pesada… Sabes, Pai. No sofrimento somos todos carne. Todos somos pele, ossos em revelação. A dor dá-nos a oportunidade de perceber que somos todos iguais. Definhamos, choramos, sentimos culpa, remorosos. Queremos abrir o coração. Dizer o que nunca dissemos. Pedir desculpa. Fazer ver aos outros o quanto errámos, o quanto outros erraram. Sermos duros! Dizer também do amor e do orgulho. Sermos leveza! Ego em abnegação. Peito aberto ao abraço, à mão que suporta. À resignação que, afinal, somos todos feitos da mesma matéria. Finita. E que quando o fim chega, é apenas a nudez total que levamos connosco. Mas tu, nunca. Nunca te vi sozinho. Sempre te vi acompanhado...