Querido Diário (1)

Hoje não tenho nada.
Não tenho uma palavra amiga.
Não tenho sonhos inatingíveis.
Hoje não voo nem quero ganhar asas.
Hoje sou espírito mortal.
A noite ronda-me e eu vagueio,
Tal como um vagabundo na escuridão.
Não quero sentir nada, hoje.
Hoje quero estar alheada até de mim mesma.
Ou pelo menos queria, tivesse eu outra pele no corpo.
Hoje é apenas mais um dia da minha vida
Ou a minha vida a passar por um dia.
Hoje sorrio forçadamente.
Hoje, hoje, hoje…
Demora a passar o dia de hoje.
E só de pensar que o amanhã vem logo a seguir…..
Que angústia.

Que venha o amanhã.
Ou eu passo por ele,
Ou ele atropela-me com o peso das horas.

Que venha o amanhã.
Quer queira, quer não
Se não morrer hoje,
Terei que o defrontar, o Amanhã.

Hoje sinto-me derrotada.
Sei lá porquê.

Comentários

Anónimo disse…
há dias assim...
parece não existir razão para tal, mas sentimo-nos derrotados...
Brain disse…
Que DUAS, estas meninas!


A minha Força

Porque a minha vontade tem o tamanho de uma lei da terra.
Porque a minha força determina a passagem do tempo.
Eu quero.
Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo.
Eu sou capaz de correr através desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que se lança para deter-me, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim próprio.
Eu quero.
Eu sou capaz de expulsar o sol da minha pele, de vencê-lo mais uma vez e sempre.
Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer, renascer.
Porque a minha força é imortal.


José Luís Peixoto
In “Cemitério de pianos”