Curtas 23 – Fazes-me Falta














Sinto-me uma pequena casa vazia.

Sem jarras, nem flores.

Sem música, nem aromas a incenso de baunilha e ópio.

Uma casa empoeirada, de móveis cobertos por lençóis brancos e objectos mascarados de jornal envelhecido.

Entro, e cheiro-lhe o pó. Apenas.


Pó…


De memórias, de quando abria a porta e dava de frente com o teu sorriso.


Pó.


Da música, das velas sobre a mesa, do gelado comido a dois.


Pó.


De quando sentia que tinha um coração a fazer sentido dentro do peito.


Pó.


De quando as minhas mãos tinham a missão de te percorrer o corpo.


Pó.


De quando no sofá, as minhas pernas se sobrepunham nas tuas, e as mãos, autónomas, se entrelaçavam.


Pó.


De quando esta casa, fazia sentido em existir.

De quando tão pequena, me parecia tão imensamente grande.

Época, em que tinha uma identidade. E eu também.

Hoje, não sei o que sou e sinto a minha casa perdida.

Caiada de saudade.

Paredes lascadas de histórias.

Janelas enegrecidas, pelo amontoar de sonhos, sem lugar nem tempo para acontecerem.

E tudo isto, sob um telhado, feito de nada.




Fazes-me falta…




Tal como as flores às jarras, mascaradas de jornal envelhecido.


Comentários

Brain disse…
Muitas vezes sentimo-nos assim:

Ausências de outro,
Provocam falhas de nós.

Ausências de outro,
Provocam saudades de nós.

Ausências de outro,
Que nos deixam,
Incompletos.

Simplesmente, S-O-B-E-R-B-O Putty!

Beijo
MIMO-TE disse…
Também já me senti assim....

Muito lindo!! :)



Miminhos meus em ti
Anónimo disse…
Saudade
Vazio
Tristeza
Ausencia
Solidão

Uma mistura de sentimentos...

Excelente
P-S disse…
Ausencias que nos marcam de tal forma que um dia ja nao nos situamos, vacilamos no ser e no estar...

Fantasticas as tuas palavras!
Manuela Peixoto disse…
incrivel como um só ser pode tornar a nossa vida na coisa mais vazia e perdida do mundo, podemos estar rodeados de uma multidão e, mesmo assim, sentir que estamos sós.... beijinho


ps: adoro os textos....
ruth ministro disse…
Pois é... Sintonia :)

Adorei.

Mil beijos
Maria Laura disse…
Sentido, sofrido, belo! Palvras saidas da alma.
miana disse…
O tempo e os sorrisos são optimas vassouras.
E o pó dará o seu lugar às flores, às paredes brancas (ou da cor que escolheres ^.^), à música, aos corações e aos gelados.
E às memórias.

*plim*
Bjnho
Gasolina disse…
Ai, como dói.
Como me doeu, como senti esse cheiro velho de pó, de coisa ida...

Um beijo.
Anónimo disse…
De repente, vesti a pele da tua alma e senti o pó... é a tua enorme capacidade de escreveres aquilo que quem te lê sente.

Muito bonito, é sempre um deleite lêr-te...

Um beijo grande minha amiga