Curtas 28 - Ruas da Saudade












É por entre os paralelos tristes das ruas da saudade que eu te encontro.

Junto das paredes húmidas do choro de quem não se consola simplesmente com a memória da pele, que não se gasta, mas se regenera a cada beijo, a cada sopro, a cada sussurro.

Encontro-me sozinha a vaguear de porta em porta, à espera de um sinal que te anuncie.

E vejo-me, pela minha própria sombra, um tanto vazia de mim, simplesmente porque não te tenho para preencher o resto que me falta.

Até que, esporadicamente, sem aviso prévio, sem notificação, tu surges, e espreitas-me no sobressalto do coração, numa dessas esquinas sujas da ausência, calma e pacificamente, como quem tem todo o tempo do Mundo para mim, para nós.

Chegas cheio de ti mesmo, a transbordar do que eu tanto reclamo e que tanto quero para mim.

E tu sabes o que isso significa. Tu sabes o que é esse encontro de almas, de poros e se suor, de olhares e cumplicidades.

Tu sabes e não queres esquecer nunca.

Queres vivê-lo sempre. Para sempre, como qualquer humano que se sinta assim mesmo, humanamente sedento por essa loucura a que chamam de paixão. Como tu e como eu. Viciados e presos um no outro, como um elo de aço, inquebrável.

E é por entre estes paralelos tristes e sós, destas calçadas e vielas a que chamam de saudade que nos encontramos e nos cruzamos pelo corpo e pelo espírito, em nome do amor que nos une como se de um sacramento inviolável se tratasse, transformando qualquer sonho intangível a todos os outros, assim, humanos, como tu e como eu.

É por aí que nos encontramos, nos becos, nas vielas, nos recantos escuros, durante o dia calcorreados por um milhão de pés incautos, sem saberem do testemunho de cada paralelo, de cada parede, de cada janela fechada sobre o mundo. O Mundo dos outros.


E nós conhecemos bem…

Conhecemos bem, a magia da Saudade e sobretudo a terapia de a matar, devagarinho, aos poucos e sem pressa, mesmo que esporadicamente, sem aviso prévio e sem notificação.



(imagem ?)

Comentários

Brain disse…
Putty!!!!
At last!

Também eu tenho vontade de te dizer:
E nós conhecemos bem...
Conhecemos bem, a magia da tua escrita e sobretudo a terapia das tuas palavras, lidas devagarinho, aos poucos e sem pressa, mesmo que surjam assim esporadicamente, sem aviso prévio e sem notificação.

Pois a tua escrita,
Continua algo de MAIOR,
Que se manifesta em nós,
Em ecos de um profundo bater,
Que as tuas palavras nos provocam,
Nos sentires,
Por nos entrarem pelos poros,
Das sílabas audíveis,
Pela leitura dos teus fabulosos textos!

Mais um Putty!
Sem dúvida, mais um F-A-B-U-L-O-S-O!

Um Beijo meu.
Manuela Peixoto disse…
todos conhecemos as ruas da saudade....mas a tua descrição é sublime!!
ruth ministro disse…
Já sabes o que vou dizer...

Hoje deixo só os parabéns.
E um beijo.
Anjo Azul disse…
"...a magia da saudade e sobretudo a terapia de a matar..."

linnndooo :) as palavras ecoaram em mim...

beijo azul
Pedro Branco disse…
Quis construir uma casa na Rua da Saudade. Perguntei-me se haveria espaço. Se não iria congestionar ainda mais a paisagem. Onde conseguir a licença de construção. Quem me faz o orçamento da obra. De que cor pintar a fachada. Perguntei-me tudo isto e muito mais. De repente uma voz soou dentro de mim: "Na Rua da Saudade há lugar para todos. Não é preciso mais nada..."
Maria José disse…
Palavras da alma. Como devia ser sempre e para toda a gente. Palavras que se detêm cá dentro.
Anónimo disse…
"... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares

(a propósito da perda de sua Mãe, a escritora e poetisa Sophia de Mello-Breyner) – Julho 2004

Para mim saudade é apenas a ilusão da perda...

Um beijo, fica bem
Mãozinhas disse…
E depois? depois de se reconhecerem, de novo, na memória da pele o tempo de cada um, o que fica? a viela escura e fria... a companhia apenas da memória que não podes tocar com a mão? solidão?

:)

gostei do texto, parabéns
Gasolina disse…
Mesmo que se busquem, que de porta em porta procures sinais, rastos, estou certa que nunca há-de ser em becos que se hão-de "matar" nas saudades. O beco não tem saída, e o vosso olhar é uma avenida larga que vos acolhe, apenas para vocês e sobretudo sem sinais proibidos.

Um beijo, Gata.

Saudades tantas!
ruth ministro disse…
Tens uma chuvinha mansa com um prémio lá na nuvem :)

Beijos, muitos
nOgS disse…
Fantástico, como tão bem nos habituaste, Putty!

E... Saudade... Continuamos a escrever sobre ela, a seti-la, quando no fundo... Nenhuma palavra a poderá expressar da mesma forma.

Beijo doce!
Ai e Tal... disse…
Conhecemos bem, a magia da Saudade e sobretudo a terapia de a matar, devagarinho, aos poucos e sem pressa, mesmo que esporadicamente, sem aviso prévio e sem notificação.

Como me revejo nestas palavras...

***MUAH*** lindo...
Gasolina disse…
Reler-te.
Como da primeira vez.
Encontrar verbos que me servem.
Mas não curo as saudades.

Beijo Gata.
Heartbeat disse…
Saudade, um dos sentimentos mais puros do ser humano. Boa descrição, bom texto.

http://me-and-my-heartbeats.blogspot.com/
Vício.
Sangue.
Veias.
Calçadas.
Pedras.
Puzzle.
ahh a saudade.. a saudade.
Encontros. Desencontros.
Terapias. Medicamentos.
Remoínhos.
Dessa. Nessa. Saudade.

****
miana disse…
Aquelas ruas que todos conhecemos e sabemos que fazem parte das nossas vidas.
Mas tb sabe bem, percorrer a rua da saudade... saudade das alegrias, emoções fortes, momentos especiais. Momentos que nos fazem sentir vivos.
E sorrir.

Saudade de um sorriso de criança*

Bjnho*
Gasolina disse…
Nada de novo, Gata?

Que avistas do teu telhado?

Beijo enorme