Curtas 30 - Marta











O meu nome é Marta.

Não interessa o apelido. Não é ele que me faz melhor ou pior pessoa.

Não é ele que me garante o sustento nem é ele que me confere uma personalidade mais ou menos forte.

O meu nome é Marta. E isso basta-me. Não conheci o meu pai. Apenas lhe conheço o apelido que a minha mãe não quis que fizesse parte de mim. E dele apenas sei que fugiu com outra mulher mal soube que eu exista na barriga da minha mãe. Marta era o seu nome.

Talvez a minha mãe tivesse escolhido o mesmo nome para mim, para nunca se esquecer que foi por minha causa que ele partiu. Talvez a minha mãe se quisesse castigar para o resto da vida, castigando-me assim, com um nome, tão comum como outro qualquer, tão cheio de peso e amargura como nenhum outro.

Decerto que tenho os mesmos olhos do meu pai. Ela nunca o disse, mas sei-o. Quero acreditar que sim. Que quando ela olha para mim, é ele que revê, nos meus olhos grandes e amendoados. Tal e qual o meu pai. Quero acreditar que sim.

Tenho 20 anos e deixei de estudar para trabalhar. O dinheiro e a alegria são coisas que não rendem nem sobejam lá por casa.

A minha mãe entrega-se aos prazeres da bebida, à dependência dos homens e ao choro quando eles partem.

E eu, vou recolhendo os cacos da minha mãe, como se por magia os pudesse colar a todos de novo. Como se pudesse fazer o tempo andar para trás e ver a minha mãe como nunca a conheci. De sorriso no rosto e com carinho nas mãos para afagar a menina que nunca fui. Nem sequer lhe conheço o som de uma gargalhada de desanuvio.

Tenho 20 anos e da minha mãe conheço o soluço embargado de uma vida de castigo e de abandono por todos. Menos por mim, que cresci dentro dela e continuo a crescer, como se o cordão umbilical que nos uniu permanecesse intacto e eu permanecesse desejada no refúgio quente do seu ventre.

Chamo-me Marta e tenho 20 anos. Apesar de tudo, sinto que posso sorrir para a vida.

Só estou à espera que ela me dê a mão.

E isso basta-me.



(imagem retirada da net de autor desconhecido)

Comentários

Branca disse…
A vida dá-nos sempre a mão,
por vezes é que temos tantas nuvens à nossa frente que não vemos a sua mão,
mas quando conseguimos passar por entre elas, apenas algumas nuvens à frente encontramos-la...

Acreditar e continuar a tentar concretizar os nossos sonhos é a chave!

Muita força de vontade, muita coragem, muita paciência é o que precisamos ter...

(...)

Fica bem...
Brain disse…
Os nomes não importam...
A história é passado...

O que realmente importa,
São os sentimentos vividos,
E o que deles,
Ficou em nós.

Porque esses...
Esses serão o que verdadeiramente será lembrado,
No palco dos sentires,
Esse,
Que nos molda,
O SER actual,
O SER futuro,
E que nos define verdadeiramente,
O "eu"!

Um BEIJO meu.
Ás de Copas disse…
Realidades para as quais as palavras não bastam... talvez um sorriso bastasse... ou talvez não...

Eu deixo-te o meu sorriso, por este intenso momento de reflexão acompanhado por esta musica LINDAAAAAAA
Walter disse…
Não interessa o nome que tens, não passa daquilo com que os outros te chamam...aquilo que todos conhecem, mas qts conhecerão a "marta" por dentro da Marta?
ès fantástica a escrever...mas isso já tu saberás certamente. È sempre um prazer (re)visitar o teu lado da lua!
beijo
walter
Ai e Tal... disse…
... Nem sei que te diga...

***MUAH*** deixo-te um beijo...
Pedro Branco disse…
Não me deixo esperar pela mão dada. Percorro cada pedaço da minha inquietação com a certeza do infinito. Só esse gesto me é importante. Em cada palavra velha que de novo nasce. Em cada momento morto que rejuvenesce. Em cada nome que em nós ecoa em direcção a um beijo ou a um abraço. Não me deixo esperar. Estendo-me ao Sol. Entrego-me à noite.
Irene Ermida disse…
sorri sempre para a vida pois um nome basta para seres um universo único!
Manuela Peixoto disse…
pequena alteração:

http://visto-do-meu-ceu.blogspot.com

bjinho
Claudia disse…
A vida dá-nos sempre a mão. Nós temos é que esticá-la...

Beijo com vida
antes Marta, que Morta.
tens vida! tens luz!
e tens a força incrível de teu personagem a mostrar que o teu escrito é forte!
permito-me amar-te por isto!