Curtas 33 - (in)Decisões








Hoje olho para trás e vejo como fui gerando e desenvolvendo o sentimento.

Ao ponto de chegar a este mesmo ponto, de que nada mais posso fazer por ele.

Maturou até ao limite que me foi imposto, como se depois de nove meses, nada me nascesse.

E resta-me vivê-lo assim, apenas por dentro.

E agora, que era suposto ter chegado o momento de uma decisão, continuo sem (me) decidir.

Não posso voltar para trás, nem posso ir mais adiante sem me esbarrar de frente com a realidade.

E essa realidade, que a via como uma barreira real mas invisível aos olhos do coração, hoje já não é bem assim.

Hoje já não me contento apenas com isso, já nada me basta.

Hoje vejo-a como um muro intransponível, apesar de me dizerem que nada é impossível.

Desculpem discordar.

Desculpem se o sentido da razão me diz o contrário.

Desculpem se tenho o pensamento mais frio de sempre, e os pés bem enterrados no chão, outra vez.

E a gravidade custa...

Hoje digo que a realidade já não dói como ontem.

Digo-vos que a realidade já não me consome os dias tristes de ausência.

Agora os dias são apenas isso mesmo: tristes, e a realidade é apenas isso mesmo: a realidade.

E há que viver com ela.

Pelo menos, quanto a isto já me decidi.



(Autor da imagem: desconheço...)

Comentários

Brain disse…
A realidade...

A realidade muda com o tempo,
Com as pessoas,
Com a duração dos instantes infinitos que por nós passam.

E...
Existem tantas realidades,
Quantos os intervenientes.

Saiba cada um da sua,
Já é muito bom.

Mas nem sempre assim é...
Nem sempre!

Beijo meu!
Escreve tu o que sentires como setas...
...

Esta música......... tão triste.......

"Hoje jão não me contento apenas com isso, já nada me basta"

Que te sintas por inteiro.
Um abraço grande, daqueles mesmo apertados para ti.

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Mensagem para o senhor do andar de cima: Vê se escreves, tenho saudades de 'ler-te'.
angel_of _dust disse…
...e a gravidade custa. a areia que beija os pés é agora gravilha que prende. a brisa que acaricia o rosto e o corpo é vento que esfria o ânimo. o calor do corpo não é suficiente para suportar a geada que se instalou.

...olho para cima e não vejo o sol. nem a lua. nem as estrelas. nada. como descobrir a direcção? como me orientar?

...ao longe um cão ladra na noite. já foi companhia de insónias. não passa agora de lamento de quem (também) está só. como eu.

...e aqui estou. à espera. ainda. sempre. à espera do manual. de instruções. onde está a cábula. com a saída a meio do percurso. o manual. que não chega.

ao fim de contas tenho a vela. que me dizem alumiar a noite escura. mas nunca cheguei a achar os fósforos.

R.

(para que não digas que não em decido a dar aqui sinais de vida)
Unknown disse…
é uma amarra dos sentires, pensares e viveres.. essa que te abraça... amarra do passado...

revi-me e muito neste teu texto. nem imaginas o quanto. seja lá qual for o motivo. cada um sabe o seu. talvez...

por mais palavras que corram... olhares... e gestos... essas amarras envolvem-nos... dilaceram-nos... torturam-nos... e quando pensamos soltar-nos... aí aperta um pouco mais para não nos esquecermos... [se é que isso fosse possível]

um beijo terno.
neste suposto quente verão
Pedro Branco disse…
Tenho a impressão que não por muito tempo...
R disse…
A realidade, quando é taõ-só realidade, é tão vazia.
Reticências disse…
Há decisões que geram eternas indecisões dentro de nós...

beijo