Curtas 34 - Inspiração da Saudade

A primeira coisa que faço quando acordo, é olhar no espelho em frente, à procura dos restos do teu reflexo. E ainda está lá. Impresso nas saudades com que tento lavar a tua ausência.
Ouvi dizer que a Saudade tem a característica de nos roubar o derradeiro descanso de um ponto final.
Fiquei intrigado e com a dúvida se essa pessoa me conheceria.
E foi um alívio saber que alguém, mesmo sem me conhecer e sem nada saber da minha realidade, compreende.
Compreende verdadeiramente o que são as reticências da espera e as interrogações do porquê.
Da falta de um reflexo ao lado do nosso, quando acordamos. Da falta de um rosto em frente ao nosso, na mesa de um qualquer café.
Do silêncio dos passos no soalho e da roupa amarrotada no chão do quarto-de-banho.
Sinto tanto a tua falta.
Até de tudo aquilo que me desagradava em ti. Do teu riso de troça a ecoar por todas as divisões, quando, por algum motivo, me aborrecia contigo.
E tento não lembrar de tudo aquilo que me dói: tu, aconchegada em mim durante as tantas noites que passámos juntos. Agora, apenas o teu reflexo que a minha memória teima em imprimir nas coisas, nos locais, em mim. Ainda em mim, apesar de ter guardado todas as tuas fotografias. Apesar de ter guardado todos os pertences que deixaste para trás, propositadamente ou por esquecimento. E nem quero acreditar que os deixaste na pressa de fugires.
Apesar de te ter “arrumado” dentro de uma caixa, o teu reflexo não me deixa.
Ou então sou eu que não o quero deixar, mesmo sabendo que nada fiz para partires, a não ser amar-te da única forma que o sei fazer. Intensamente, para que nunca haja lugar para arrependimentos e para um único “se”.
E tento a todo custo perceber o teu porquê, enquanto vou inspirando e expirando os meus dias de vazio. Enquanto por dentro estou partido em mil e um cacos.
Gostava de poder enterrar a memória do teu sorriso e das tuas mãos pequenas, que cabem por inteiro nas minhas. Gostava de esquecer o teu nome dentro do meu. Os teus beijos perdidos nos meus. O teu corpo mergulhado no meu. As promessas e as juras que lia nos teus olhos.
E gostava que me devolvesses o que fui. Por inteiro.
Podias voltar apenas para isso.
Para pores um ponto final à minha Saudade.
A inspiração, veio d'O Bilhete, Filipe Paixão.
(autor imagem ?)
Comentários
Muito forte.
Então acompanhado desta música.
Aperto.
Aqui.
No peito.
Sabes, aquela sensação que lemos algo tão forte que não conseguimos ler até ao fim pq o aperto é grande?
Foi isto.
Volto depois.
Um abraço enorme aqui destes lados do Desassossego.
Saber que as pessoas gostam de ler o que escrevemos, é gratificante.
As pessoas manifestarem-no pessoalmente ao autor de alguma forma... ainda mais gratificante é ainda.
Agora...
A nossa escrita provocar "este tipo" de "inspiração"... é para mim, sem dúvida o ponto mais alto, A gratificação máxima que eu poderia ter.
E sabes,
Este teu texto é o complemento perfeito para o prefácio que uma Amiga fez o favor de escrever, e que agora aqui, o partilho contigo e com todos:
"Prefácio - «O Bilhete»
Sabes, gostava de te poder falar e contar, disto que sinto, que magoa mas não deixa nódoas negras, que cria ferida sem cicatriz.
Disto, a que chamam de saudade.
Saudades dos dias, em que o tempo se mistura nas palavras, e das palavras ramificam gestos, de onde provém o Amor. E nós nascemos assim mesmo, dos gestos e das sementes da palavra.
E assim, também em palavras, tudo pode terminar.
(…saudade das nossas conversas…)
Saudade é isto mesmo. O desejo de ter, de ser, de sentir, de voltar, mesmo quando o tempo, que se dissolve no espaço das nossas vidas, não volta atrás. E das entrelinhas das nossas mãos, já não se desfiam sonhos, mas apenas vontades.
(…saudade do teu toque…)
A vontade de tudo voltar a fazer.
De tudo voltar a ser.
De tudo voltar a poder, um dia, acontecer.
A Saudade é isto. É o peso de um desejo por concretizar. De um voltar a saborear.
(…saudade do teu beijo…)
A saudade, é esta ânsia de aniquilar o travo amargo do vazio de ti.
Reflexo embaciado e permanente em mim, impresso a fogo nos meus dias, cravado fundo no meu corpo, longe do teu dedilhar pela minha alma, longe da linguagem dos teus olhos, que os meus tão bem conhecem.
(…saudade do teu olhar profundo…)
É esta insatisfação do Ser que se arrasta pelos dias sem horas, sem Sol e sem Lua, como se metade de mim, estivesse perdida do mundo e desencontrada do teu tempo.
(…saudade do que de mim levaste…)
O que é a saudade, que não o desejo, aqui desvendado, entrelaçado nas letras, vincado nas virgulas e reticências, do meu tempo contigo.
Agora sem ti.
(…saudade de nós…)
O que é a saudade, que não o tempo que passa entre mim e a tua inesgotável ausência.
A minha Saudade é esta…
O meu Desejo é este…
O privilégio de ti."
Um Beijo Meu.
Para pores um ponto final à minha Saudade."
Ou quem sabe para podermos juntos fazer com que tudo volte a acontecer.
Fantástica esta curta.
e (re)sentir.
Beijos
Beijos e parabéns
(Quando publicares um livro, quero comprá-lo.)
walter
Deixei de te ler durante uns tempos, porque a tua escrita estava a sufocar-me com sensações que eu não aguentava ter!
bjs
A cobardia nunca deixou que esse ponto final fizesse parte da minha vida. A cobardia insistia em preencher todos os meus segundo com pontos de interrogação, uns maiores outros menores, mas sempre pontos de interrogação.
Fui então à procura desse ponto, o ponto final. Tentaram dar-mo, mas de uma forma tão baralhada e cobarde que mesmo já tendo um final no fim da minha frase os pontos de interrogação teimam em permanecer.
Raramente nos dão pontos finais, isto porque a vergonha e cobardia é mais que muita, resolvem dar-nos interrogações sem nos perguntarem se as queremos.
Fartei-me de escrever apenas para te dizer que doi, mas ha que lutar. Gostei muito do que li, voltarei.
beijocas
Mas, sufoca.
.
Muito.
É.
.
Torno a voltas, depois.
Os sentires são teus.
O dedilhado de um reflexo que já não é reflexo, é pele tua também.
E para isto não há caixa.
Um beijo enorme
Este sentimento que tao bem escreves será comum a muitos de nós por isso tão tocante...
e fico em silencio a ler-te...
Linda!
As palavras são...
Intensas e sufocantes!
Apaixonadas...
Beijo