Modus Operandi

Para escrever é preciso ter a alma abraçada aos dedos.
É preciso ter o coração desarrumado, perdido do próprio peito. Ter a alma em peregrinação e em sangue de tão longa a caminhada.
É fundamental açoitar o espírito, ter os sentidos perdidos da pele ou embrenhados por cada poro.
Para escrever é preciso estar noutro lado. Olhar além do que vemos e fechar os olhos e sermos outros para além de nós.
É preciso ter a alma abraçada aos dedos!
A alma desajeitada!
As mãos rudes e impacientes!
É preciso amar como nunca!
Rasgar o peito por dentro sem que ninguém perceba!
Apaixonar-se por cada palavra, por cada vírgula, por cada espaçamento entre uma reticência!
É preciso chorar convulsivamente e rir desesperadamente. Ter um ímpeto, um apelo sobre-humano, um sopro no ouvido, um grito que se possa dizer.
Escrever é ter tudo isto de uma só vez. Sem dotes de artista, sem dons miraculosos.
Não se pode escrever de outra forma, porque, simplesmente, não existe mais nenhuma.

Escrever é apenas isto. É apenas este tanto: a inquietude a trespassar os nós dos dedos.




(Imagem: Miguel Ministro)

Comentários

Brain disse…
GREAT!!!!!!!

Nem mais!

Beijo Meu.
Brain disse…
Uma palavra para este "reviver" desta música FABULOSA de uma banda, também ela própria, não menos que isso!
Unknown disse…
É bom que treines a tua assinatura :) :) eu levo canetas suplentes!
Lú, penso que não será necessário.
Mas posso perder a minha e convém ter suplentes, sim...

:)


Beijos
ruth ministro disse…
Eu acho que, pelo sim, pelo não, devias levar um canivete... caso a tinta da caneta te falhe :D

Mais uma vez, as tuas palavras são fortíssimas. Adorei.

Beijos
A.S. disse…
Putty,

Eis a questão: A caneta pode perder-se, falhar, esquecer...
FAZ UM CARIMBO!!! :)

Quanto ao teu belo texto, escrever pode ser inquietude sim. Mas também, as palavras escritas podem ser uma melodia, suave como o resvalar dos dedos...

Um beijo!
AL
Walter disse…
Se escrever-te é tudo isso, acredito que ler-te, para mim, também o é. Como sempre és tão crua que parece que me rasgas por dentro e é esse o "martírio" que me fascina. Talvez seja também por isso que nem sempre venho ao teu espaço...saio em silêncio
bjs
Walter
pin gente disse…
gostei muito, putty!

desbravarás mais caminho com a caneta.

beijo
Filoxera disse…
Fabuloso!
É exactamente assim que sinto a escrita.
Um beijo.