Da memória
















Sempre pensei que a minha mãe era eterna, uma super-heroína, imortal.

Desde muito miúda que me lembro de ter pensamentos "e se a minha mãe morrer?!", mas logo de seguida "não, não pode morrer, a minha mãe é imortal, não pode morrer"
E sempre que via as mães dos outros morrerem pensava "não, a minha mãe, nunca".

Até que a minha mãe morreu. Mas "não, a minha mãe, nunca, a minha mãe não pode morrer porque é a minha mãe".

Tantas vezes me recordo de mim, muito miúda a pensar "a minha mãe, nunca". Tantas vezes me recordo de estar colada à janela do meu quarto, à espera de ver o carro dos meus pais estacionar á porta de casa, a minha mãe a abrir o portão e eu a limpar rapidamente as lágrimas de pleno alívio "a minha mãe chegou!" E sempre que por uns minutos se atrasavam, eu pensava que algo lhes podia ter acontecido, um acidente qualquer, que a minha mãe nunca mais chegaria a casa. Mas "não, a minha mãe, nunca!"

A minha mãe. Como encho sempre a boca e o orgulho para dizer "a minha Mãe".
Como se enchem de lágrimas os meus olhos quando encarno de novo aquela pequena miúda, colada ao vidro da janela do quarto, a chorar porque passou da hora do carro chegar a casa e nunca mais ouço o portão a abrir.

Sempre fiz tempestades em copos de água e hoje a água transborda do copo em verdadeira tempestade porque a minha mãe não chegará mais a casa. O portão nunca mais se abrirá pela mão dela.
E eu continuo a menina que chora no quarto, sozinha e sem ninguém saber.


[imagem retirada da net]

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