Palavras inteiras


















Há palavras inteiras que são verdadeiras casas ao abandono. Palavras que um dia tiveram lustres, cheias de luz cristal e de reposteiros imponentes que pingavam vida até ao chão.

Há tantas palavras inteiras que deixaram de sair da minha boca por já não ter sítio por onde entrar. Tudo são portas fechadas, cadeiras e pratos vazios e mesas onde já só se bebe do vício e não da sede. 
E eu tenho uma sede inteira. Inteira de mim e de tudo o que de inteiro pode haver.

Abro a boca e apenas um grito mudo sem resposta. 
Abro a porta e apenas o vazio pintado de flores secas. Do chão saltam línguas de fogo extinto que se desfazem em cinza. Tudo é pó de dias felizes, de tempos em que as palavras tinham eco e sítio onde 
adormecer. E penso que já ninguém quer partilhar a mesma mesa que eu, beber um trago do meu copo sem fundo. 

Há palavras inteiras que morrem sem nunca crescer. Minguam na minha boca de onde apenas tenho sede, vontade inteira maior do que eu e de tudo o que de inteiro e maior poderá alguma vez existir.


2015 Junho 19



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