Recorte de céu


Lembro-me de olhar o lugar de cada um no outro. Das conversas mudas, quando o corpo de um no corpo do outro. Ou de quando na distância de um batimento cardíaco. Melodia de um peito aceso. 

Lembro-me de tudo. De quando passeávamos de mãos dadas, nos passadiços do verão, nas calçadas do inverno. Nos dias da vida intensa ou nos dias de horas apenas.

A música em cada sorver de sol, triste em cada uivo de tempestade.

Lembro-me de tudo.

De olhar o céu que era só nosso de ver. Simples. A acontecer no mesmo tempo e medida em que acontecíamos também. Um pequeno recorte de azul visto de umas pequeninas águas furtadas. Só nosso de ver. Há coisas que sempre quis sentir apenas contigo. Talha dourada a emoldurar um pedaço de luz em tempos escuros de caos. Sonhos que o músculo do mundo nunca conseguiu desfazer.

Pergunto-me se vias o mesmo que eu, quando deitados, lado a lado. Se o que eu via naquele recorte de céu era o mesmo que via nos teus olhos, enquanto uma mecha de cabelo se enrolava nos teus dedos. 

Lembro-me. 

Das manhãs incendiadas. Centelhas. Quando éramos fogueira e combustão. Explosões sucessivas de pele. Caminhos de profundidade. Testemunhos de tudo o que em ambos era possível de fundir. Uma matéria única e indivisível. O perfeito infinito, onde nenhum sabe onde um começa e o outro termina.

De quando eu tua. De quando tu só meu. 

Lembro-me de tudo. 

E tenho saudades. De tudo o que me lembro e nunca aconteceu.

Num (apenas) pequenino recorte de céu.

Comentários