O dia de todos os outros dias

 


Mãe. 

Por muito que me queira blindar de dias como este, é impossível evitar o contágio. 

E dói. Saber quem já não tem uma mãe para abraçar. Saber quem a tem e ainda o pode fazer. Quem o pode fazer e não faz. Todos os gestos. Todas as palavras. Todas as omissões. 

 Nunca fomos de coisas materiais em dias como este. Fomos sempre, como todos os dias, o abraço apertado. O beijo ternurento. A presença constante. O telefonema diário.

Actos de Amor na sua forma mais pura.

É disso que sinto tanta falta, Mãe. Não do dia, mas de todos os outros dias. Contigo. Sabendo-te deste lado, à distância de minutos dos meus olhos. Mas estás tão longe e é já tão tarde que tudo escureceu.

Agora Mãe, que me fazes mais falta do que nunca, sei o que me dirias, olhos nos olhos, em braços quentes. Na voz doce que já não consigo ouvir na minha memória. Estás demasiado longe no tempo e eu já não consigo ouvir-te...

Mas preciso de te escrever. Como se tu também precisasses de me ler. Para me saberes deste lado. Para nos sabermos. Até no fio de pensamento que sempre nos ligou, numa correspondência silenciosa. 

Há quem precise morrer para ser lembrado. Mas tu não. 

Estás apenas muito longe de mim, no dia de todos os outros dias. Em que sempre me és. 

Para sempre, Mãe. 


2025 maio 04

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