Leva-me para Casa
Leva-me para casa. E quando chegares, não faças barulho. Não queremos perturbar a quietude das coisas. Nunca foi preciso bater à porta para eu abrir os olhos. Por isso, quando chegares, a porta estará como sempre esteve. Prometo que saberei entender a luz, como não o soube fazer numa outra vida. Não me assustarei, não te vás embora, por favor. Vem de mansinho, devagarinho. Pega-me pela mão e sorri. Diz-me que agora sim, vai ficar tudo bem como um poema feliz. Um que nunca tenha sabido escrever, porque as minhas palavras sempre foram filhas da sombra e do caos. Tu sabes. Estás no princípio e no fim de todas elas. De todas as coisas. De todo o tempo desde a consciência que tu existes em mim como sangue espesso nas veias. Será possível terminar um poema sem sangrar? Diz-me que sim enquanto saímos descalços e a escrever os últimos versos até ao fim desse poema que nunca soube escrever. Em silêncio para não espantar tudo o que fica. Todos que dormem. E agora, leva-me ...