Curtas 13 - Adeus não é para quem morre
Ou pelo menos gostava de pensar nisso. Ficar. Pensar em decidir ficar.
Por isso, hoje vou meter-me no comboio e fazer a viagem.
Direi adeus, hoje, mas não te digo as horas a que parto porque não quero despedidas.
Não gosto de dizer adeus. Não gosto de proferir essa palavra.
Gosto de a pensar apenas. Mas num adeus que signifique um “até breve”, um “até já”.
Hoje, quero despedir-me deste chão, e destas paredes, mas não de ti.
Quero levar a noite comigo e a lua com a noite e tu numa caixinha que guardo no peito.
Nem fotografias levo. Não preciso de um retrato para amar. Preciso apenas de um coração, de uma certeza, de uma vontade e do outro lado a reciprocidade na mesma forma e medida.
E essas eu sei que as tenho todas.
Também não quero que te prendas às minhas fotos. Se fosse a ti, rasgava-as todas.
Ama-me como me vês, dentro de ti, e não como a objectiva me capta.
Imagens, não passam disso mesmo. É material solúvel a curto tempo e no tempo.
E dentro de ti é intemporal. Dentro de ti, serei eterna, até ao dia em que tu próprio te tornes eternidade.
Hoje parto para a vida. E ao partir para a vida, quero que saibas que parto para te reencontrar, não como no teu retrato mas como imagem captada pelos meus olhos e transformada pelo coração. Eterno.
Adeus, não é para quem morre, é para quem sabe que um dia se vai reencontrar. Eu tenho a certeza que nos vamos reencontrar, senão aqui, noutro lado ou noutra qualquer dimensão, para lá do material, para lá do pó da terra, para lá dos retratos.
Não chores. Canta, ri, dança, e se chorares, que seja de alegria.
Adeus não é para quem morre. É para quem espera nos dias um novo encontro, um reencontro.
Por isso, digo-te adeus em pensamento. Recebe-o com um sorriso.
Ama-me sempre, ou pelo menos até eu voltar. Se tiver que me despedir de vez e de ti, quero fazê-lo com um beijo de boas-vindas.
Adeus…
Comentários
A “arte de saber viver”, reside na capacidade de sermos desejados nas nossas partidas;
A “arte de saber viver”, reside na capacidade de sermos conhecidos e desejados por tudo o que fazemos de bem e pelo nosso contributo para com o bem-estar dos outros;
A “arte de saber viver”, reside na capacidade de sermos nós próprios, em todas as situações, sem com isso, provocarmos qualquer tipo de dissabores no próximo;
A “arte de saber viver”, reside na capacidade de sabermos guardar, bem dentro de nós, todos os nossos amores e tudo o que de bom eles representaram para nós.
Putty, este teu escrito… é talvez um dos melhores que já li de ti.
Parabéns pela tua capacidade de surpreenderes, uma vez mais, pela positiva.
Beijo.
É o que tenho tentado fazer, com os vários "adeus" que tenho recebido ultimamente.
Muito bom este post.
Quanto a ti, meu Brain, pena que nem todos conseguimos ser artistas como tu. Eu da minha parte tento pelo menos guardar, bem dentro de mim, todos os amores e tudo o que de bom eles representaram para mim, tentando desta forma, "saber viver" sem eles.
Beijos
Um nome, um nome apenas, evocando alguém, um lugar ou uma coisa, é a bagagem suficiente para avançar pela noite dentro, esperar a morte, ou iniciarmos o regresso... "
Al Berto, in O Anjo Mudo