O que separa amigos de amantes

Há quem tenha a ousadia de transpor essa barreira.

A invisível barreira que impede amigos de se tornarem amantes.

Essa linha resistente mas ultrapassável para os audazes curiosos.

Não é uma parede, não é um muro de betão.

Não tem arame farpado, nem cerca electrificada.

Quem quiser passa e dificilmente voltará ao lado de lá.

Imagino-a quase como um trilho de carvão incandescente, em que mesmo assim, conseguimos dar as mãos, tocarmos um no outro de forma graciosa como se não tivéssemos carne a envolver o coração. Aquela intimidade que só os amigos verdadeiros sabem ter e cultivar. Aquele toque de pele puro e nunca sexual. Aquele beijo.

Mas há quem arrisque tudo isso por um piscar de olhos de um “...e se…?”, “...porque não...?”.

E aí, ou se perde um amigo, ou se perde um amante, ou se perdem ambos. Mas se ganhares um amante, perderás para sempre um amigo.

Eu cá, continuo a gostar muito de andar de mãos dadas.

Comentários

Brain disse…
Putty,
De facto, numa amizade contínua e intensa, vivem-se momentos de intimidade, seja ela expressa sob que forma for.
No entanto, a barreira de que falas e que eu concordo que existe, é uma barreira natural, que não é imposta, existe e é aceite de forma natural pelas partes, que a conhecem bem.

A tua analogia a "um trilho de carvão incandescente" está perfeita em todos os aspectos.

No entanto, não posso concordar contigo quando dizes: "Mas se ganhares um amante, perderás para sempre um amigo." pois para mim, o amor, é uma amizade elevada ao seu expoente máximo.

Enfim... diferentes perspectivas para comentar aquele que é, mais um excelente escrito!
Anónimo disse…
Não confundas o amor com o delírio da posse, que acarreta os piores sofrimentos. Porque, contrariamente à opinião comum, o amor não faz sofrer. O instinto de propriedade, que é o contrário do amor, esse é que faz sofrer. (...) Eu sei assim reconhecer aquele que ama verdadeiramente: é que ele não pode ser prejudicado. O amor verdadeiro começa lá onde não se espera mais nada em troca.

Antoine de Saint-Exupéry, in 'Cidadela'
Anónimo disse…
Óptimo tema Putty!!!

Se em tempos não pensava muito sobre essa linha divisória, actualmente acho que é das melhores coisas que existe. Esse "trilho de carvão incandescente" é óptimo, mas não creio que seja permanente.

Há alturas em que ele está lá, mas desaparece com o amadurecer da amizade. Desaparece quando tomamos consciência que é apenas um trilho de carvão e que se for atiçado poderá devorar essa amizade, cujo valor, para mim, é imensurável.

Sempre que essa barreira é ultrapassada de uma forma leviana, acho que perdemos tudo.

Nada melhor do que uma bela amizade, mesmo que com muito carinho à mistura, pois este carinho em lume brando que se manifesta apenas com um olhar ou um toque no ombro é o que nos ajuda a enfrentar aqueles momentos mais duros.

Gostei muito do tema Putty... Acho que todos ao longo da vida se deparam com este trilho de carvão incandescente, tão bom de sentir por ser apenas um trilho de carvão e se se mantiver assim. Quando se transforma em labareda o risco é enorme. A probabilidade de se perder tudo é enorme...