Curtas 22 - Partida sem Ida









Partiste.


Fizeste a mala, aniquilaste o passado, com sede do futuro.

As meias de renda, que sempre te fizeram companhia nas noites frias, foram a única coisa que contigo levaste.

Partiste.

Meia dúzia de recordações na pequena mala, de quem te possuía o corpo assiduamente.

Sem valor.

Mas que fizeste por merecer... pensam eles. Pensam sempre.

Todos eles. Os que te devolviam um sorriso nojento, no fim de te consumarem.

Tu devolvias o sorriso. Amarelo. Sem sentido, a não ser para receber os trocos despojados em cima da mesa-de-cabeceira de uma qualquer pensão reles.

Como eles.

Esses.

Homens sem rosto, de quem guardas apenas isso. Um sorriso apodrecido. E um bafo putrefacto que o pescoço ainda hoje guarda.

O pescoço guarda memórias, que o resto do corpo prefere esquecer. Nos pulsos furados pelos cigarros em brasa. Nos arranhões, nos golpes auto infligidos.


Partiste.

Fizeste a mala.

Calçaste essas mesmas meias de renda. Marca própria. Tua.

Sapatos vermelhos e a mini-saia que o teu primeiro chulo te deu. O teu pai.


Partiste.

Fizeste a mala.

Meia dúzia de quilómetros.

Descalça dos sapatos vermelhos que te mastigavam os pés.

Fizeste-te à estrada.

Partiste.


E a vida atraiçoou-te.


Partiste.

Mas nunca te deixaram ir.

Eles.

Esses.

Homens sem rosto, de sorriso amarelo e bafo putrefacto, de quem o teu pescoço ainda conhece histórias.


(ao som de Sigur Rós)


Comentários

Unknown disse…
Grande sentimento neste post. Tanta e tanta vez que esta estória é repetida. Mas não devia. Nunca.

São daqueles posts que pouco se pode acrescentar. Muito Bom*
Maria Laura disse…
Dureza e sensibilidade parecem não se misturar. Mas é mentira. Este texto prova uma "mistura" perfeita.
Brain disse…
Too Hard,
Too Deeply,
Too Down...

Beijo.
Maria José disse…
Saída de sítio nenhum em direcção a nenhum lugar. Esse onde ninguém espera que um vulto chegue. Muito menos uma Pessoa.
Vitor disse…
andar na passadeira rolante... no sentido contrário ao movimento...sem sair do lugar...e desejar lá ficar sempre assim...
Andarilhus disse…
Olá Putty,
Também eu dobro a esquina do pensamento, com constância. Mistura-se à lembrança, a saudade. A saudade de outros tempos e de outras conversas.
O amor que descreves no post anterior (entre neblinas mágicas de fadas, castelos, cavaleiros, etc...) existe. Quanto mais não seja, existe dentro de nós, em fábula de querer, que acarinhamos mais ou menos em silêncio... E amar não tem de significar necessariamente reciprocidade... pode ser num só sentido (como acontece... demasiadas vezes...).
Feliz com as tuas visitas, deixo-te um beijo da "Rosinha".

"(º0º)"
ruth ministro disse…
Este foi duro de ler. Duro de sentir. Mais uma vez, muito bom.

Parabéns, querida Putty cat :)

Mil beijos
MIMO-TE disse…
Um tema "forte" transformado por ti num belo texto.

Beijos linda :)
Maravilhosa descrição; não sei mais oque falar; só tenho a figura em mente, o curta a rodar...

Parabéns pelo belo gosto!

;*****
Li e reli as suas palavras.
Cumprimento-a respeitosamente num gesto de compreensão e admiração pela forma como as palavras lhe saem magestosamente!

Abraço
Anónimo disse…
Por vezes, a realidade custa a engolir.

Mas o que custa mais é a indiferença perante ela.
Anónimo disse…
Excelente descrição de uma realidade que por vezes nos passa ao lado...

Partida sem Ida
Ida sem Volta
P-S disse…
Um texto poderoso, com grande sentido e sentimento! Tão real e tão bem escrito.

BJ
skywalker disse…
Putty! Não me cansas de surpreender...

Poderoso... intenso... e com uma mensagem tão forte... "aniquilaste o passado, com sede do futuro"...

As partidas são as chegadas das próximas partidas...

Quantas vezes teremos nós de partir?

Beijos