Curtas 25 - Inverno de Mim

É Inverno desolador. Lá fora e cá por dentro. Cá por dentro chove. Lá fora, apenas um frio muito frio, estranho aos dias e à pele.
É Inverno na minha vida.
Um Inverno que nunca quis conhecer.
Que sempre tentei ignorar. E hoje, agora, chove cá por dentro.
Lá fora, as folhas secas giram em rebuliço, como se os espíritos anunciassem mais uma partida.
A tua.
A tua partida e a anunciação de um longo e pesado Inverno de mim.
Nem sei se me apetece chorar. Nem sei se me devem sequer, tentar consolar.
Olho os rostos que me devolvem aquele olhar de Inverno, mas mesmo assim, é um Inverno diferente. É um Inverno sem o trago da bebedeira dos sentires. E é isso que eu tenho. Uma enorme bebedeira, onde tudo o que sou e conheço, bate nas paredes, agora ocas, desta massa de carne a que chamam de corpo. Não sei se devo chorar. Não sei sequer quem devo consolar, quando eu própria sinto os meus sentidos inconsoláveis.
Não sei o que posso vir a sentir a partir de hoje, deste interminável e consciente momento, em que a minha alma agoniza e o meu corpo, simplesmente, não reage. Só este Inverno, tenho a certeza que é permanente. Este frio na pele, este gelo no peito e este desconforto do olhar para o resto da vida.
Suponho que congelei as lágrimas que não querem cair por ti. Permanecem cá por dentro, onde se faz frio. E os espíritos, do lado de fora, retomam o seu ritual, compassado.
Recebo abraços quentes e palmadinhas nas costas, e entre os rostos de consternação, eu não me consigo rever em nenhum deles. Não são frios o suficiente. Não têm a mesma perda, a mesma embriaguês, o mesmo olhar perdido para o resto da vida.
Tu partiste, e eu ainda não acredito. Não posso acreditar porque não posso conceber a minha presença num Mundo, onde a tua existência, não passa de uma simples memória. A minha memória.
Que sentido faz isto?
Que sentido faço eu agora, sem ti?
No fundo, parte de mim, continua à espera que uma alma generosa me diga que tudo foi um engano e que a tua partida foi adiada para um tempo incerto.
Mas também sei, que isso é apenas esta maldita embriaguês a falar. Porque, apesar de tudo me soar a um terrível pesadelo, tenho esta certeza dilacerante de que não voltarei a ver o teu sorriso, nem a sentir o conforto umbilical do teu abraço, nem a ouvir o teu tom de voz, nem a sentir a candura do teu olhar.
Não voltarei, porque tu não voltarás.
E o que continuo a sentir, é este Inverno desolador. Apenas e só...
Lá fora e cá dentro.
(... o que farei eu da Primavera...)
(foto: 1000imagens - Paulo Moreira)
Comentários
De quem fica.
Excelente texto Putty!
Another One!
Beijo e um Excelente 2008!
Desejo-te toda a felicidade do mundo neste Novo Ano. Mil beijos meus
beijos ...muitos
Beijo grande e que 2008 seja fantástico para ti.
beijinho
Hang on. Spring always follows winter. No matter how hard...
Beijo*
E em breve sentirás o seu calor.
Bjnho
*Feliz Ano Novo*
Não foi o silêncio que me acordou
Deixei-me cair, mais que inteiro ou desfeito
Só por conhecer o dia em que ele não voltou
Perdi-me na ternura da solidão
Desta dor que me acolhe como uma foz
Deixei-me cair, na cor de mais uma canção
Onde te canto assim. E não ficamos sós
Quando o frio estala a pele e a chuva escorre devagarinho por cada valeta do ser, fica a desilusão. A tristeza encarnada. A saudade, por vezes.
Só me aquece a certeza que a Primavera voltará. Para ti também.
Um beijo quentinho.
Kiss
um beijo forte
moon
Logo, logo, o Sol vem aquecer-te.
Um beijo forte, Gata
bj
walter
A Primavera virá. E fará todo o sentido.
Há, porém, a esperança de, nos mesmos termos, surgir a Primavera.
A vida é feita de isso mesmo: rotinas.
PS: Espero voltar aqui na Primavera
Paulo