Curtas 39 – Por dentro

E chega aquele momento em que de dois passamos a um. De quatro mãos fazemos apenas duas e de um amontoado de pele, saliva e poros, um único deleite.
O momento em que nos confinamos às paredes do que somos, porque juntos misturamo-nos por dentro delas e pintamos e repintamos o Amor, criando uma tela de mil e um sentires numa plenitude inconfundível, porque apenas a nós pertence.
E deixamos que o nosso melhor nos vença os sentidos, cansados do que vem de fora, e resvale para lá do que somos.
( E somos tanto. Somos tanto mais! )
Mergulhamos bem lá por dentro para chegar a todas as fendas e brechas até ao atingir do ponto. Daquele fugaz ponto que permite o descontrolo do teu olhar no meu.
O desvario da tua boca na minha e o êxtase trémulo que nos percorre o corpo ansioso.
E do teu suor faço o meu, da tua língua o meu desatino e do teu beijo a minha entrega.
Transmutamo-nos em altar um do outro, fazendo de ti o meu sangue e eu, o teu corpo, elevando a carne ao espírito em perdição por tragos de vida que raramente tocamos. E é por dentro que nós nos somos verdadeiramente.
( E somos tanto. Somos tanto mais! )
E continuamos. Juntos. Lado a lado. De mãos dadas. Bem por dentro.
E insistimos em mergulhar de olhos fechados.
E perseguimos na busca das brechas onde nos perdemos, reinventando a rendição do toque de dedos por toque de pele.
E persistimos um no outro, mesmo quando o vazio nos arrasta. Mesmo quando a solidão se perpetua por dentro, nos risca as paredes e arranca soalhos.
E por dentro, persistimos um no outro, sabendo que lá fora, lá fora os sentidos cansam.
E somos tanto. Cada vez mais.
Comentários
Que em tudo e por tudo,
Somos e seremos sempre,
mais,
Mais
e
MAIS,
Quero aqui deixar-te,
A minha melhor,
(resvalada para lá do que sou)
Mais
E
Cada vez MAIOR,
Admiração,
Por aquilo,
Que escreves,
Como só TU,
O sabes fazer!
Um Beijo Meu,
Em Ti!
Beijos
Numa entrega incondicional
Esquecemo-nos que somos tanto mais
Porque nos esquecemos que somos tanto mais
O vazio que nos engole acaba por ser maior que o universo...
Estremem!
Os sentidos.
Gostei muito, para variar ;)
Abraço grande.
in filme As Horas baseado no romance homónimo de Michael Cunningham que vive três épocas diferentes do livro Mrs. Dalloway de Virginia Woolf:
És uma escritora? Vês coisas e torna-las tuas?
Ou por outro lado contas o que realmente viveste?
Neste texto, declaro a título de opinião, existe um todo de sensação nutrida por sentimentos.
Essa sensação mostra-se mais que palpável, quase comestível.
Comida para a alma, se me perdoam a fraca tradução do Inglês.
Arrepia, dá que pensar, implanta-se até como um marco do viver. Porém se for apenas boa escrita deixa, ao invés do bastião do humanismo, uma sede da procura.
Se és escritora deixas-me com essa sede, retratas bem o que anseio e que nos bons momentos vivo sem o conseguir descrever.
Se o vives enalteço então aqui a minha honra por ter conhecido tal conjugação de letras, frases e palavras.
Embora sejam apenas isso mesmo, mostram (mostras) que da simplicidade nasce um Universo tangível e perfeito.
Vale a pena continuar a sonhar!!
Um carinho no rosto para ti!