Embalo de Mar
Depois de ti, agigantam-se tempestades. Pássaros erguem-se assustados, nuvens adensam-se engolindo o céu, o mar revolta-se na minha direcção.
E nunca o mundo foi um lugar tão só.
Depois de tudo, o meu peito é ninho de pássaros tristes, um tecido vivo à sorte dos abraços do vento que o desmembra junto com memórias que um dia a vida fez morada.
E é tudo tão longe agora que não estás.
Há tanto tempo que faço o meu próprio velório e bebo da dor do meu luto. Quando morri depois de ti, ninguém deu conta. Ninguém percebeu que quem cá ficou é apenas uma ilusão que deixou de cantar a vida para apenas adormecer na tua morte. Tu não estás. Eu deixei de estar.
E o mundo nunca foi tão grande de ausência.
Há coisas que não consigo ignorar, quando as lágrimas são balas que esperam no céu ou quando o mar que te levou me levanta a mão. E com dedos de gume desfaço ondas em espuma que morrem tristes aos meus pés. E as que voltam são grito, todas as marés súplicas tuas por atender.
És tão longe de mim que o fim nunca me pareceu tão próximo e as lágrimas de sal são balas à espera no céu aceso.
Vêm de novo as marés mordendo a minha insistência em permanecer e as súplicas para me fazer água nunca me soaram tão nítidas. Nunca a morte me pareceu tão sublime agora que olho as aves, certezas absolutas batendo asas para o infinito. E de novo os pássaros em torno do ninho. E de novo o meu peito cheio de vida de quando éramos tanto. Fecho os olhos. E é no embalo das marés que a vida recomeça. As aves sossegam e voltam a repousar na quietude das árvores. Caiem lágrimas, balas que já não matam ninguém e o céu sorri de sol.
E nunca a eternidade me pareceu tão perfeita.
2015 Maio 22
Foto by Mandrake

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