Não sei

Em que lugar pousar agora os olhos.
Em que mesa descansar agora os cotovelos.
Ser certeza quando a dúvida me leva pela mão.

Nessa cegueira do querer, adormeceste.  Ao fazer de conta que chegaste a um lugar que não existe.
(Abre os olhos...)

Mas os olhos já não pousam do lado de fora, por não saberem onde acontecer.
Rasam sós e muito levemente, a passagem dos dias, a tocar os nadas simultâneos.

E os medos. E as (in)certezas.

Porque não sei se saberei ser.
A estranheza de um fim sem nome.
A nascer de um gemido lento.
Em abandono. Quase absurdo.

Não sei se saberei ser regresso.
Mesmo antes de saber o que é ser partida.

Porque tudo é ruído silencioso. Enorme.
A estilhaçar num peito rasgado e sem sopro de dor.
Contínuo. Entre os nadas simultâneos.
Na indiferença dos dias.

E já não sei o que saber.
Já não sei o que (vale a pena) perguntar.

Não sei onde pousar os olhos, os cotovelos. Ou como largar a mão à dúvida.
Porque tudo são vidros.

E mais uma vez aqui estou.
Sem saber.
Que voz (quero) ouvir agora.



2025 agosto 30

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