Tempo




 Nunca o tempo é um lugar vazio. 

Íntimo, é um espaço conhecido de casa.

Uma mesa onde sobram cadeiras, cada uma com um silêncio que cresce e se dobra sobre si mesmo, como só um silêncio de tempo sabe fazer depois de nascer. Ficando.

Por vezes, o tempo tem voz de poemas, algumas canções. Versos que nascem fora do seu tempo. Carregados de intenções que não vingam no propósito da sua existência.

O tempo tem sido isto há tempo de mais. Chão gasto. Longa a mesa. Aquela onde mais nenhuma. Onde o tempo insiste em pousar as mãos, os cotovelos, servindo dúvidas inúteis como talheres a bater em pratos vazios.

Ainda ontem foi assim, num outro Setembro.

Repito-me, encaixando o queixo entre os punhos fechados. 

E quando dou conta, é hora de levantar a mesa e arrumar todo o tempo que não aconteceu. Coisa que insiste em dobrar-se, aninhada sobre si, envergonhada da sua insistência em nascer todos os dias.

 Ficando.



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