Curtas 1 - Enquanto houver Sol e Lua

No 1º dia em que entrei por esta porta, olhaste-me e sorriste, e mesmo sem poder falar, senti o eco da tua voz bem fundo em mim.
Agarrei-te a mão e tu, com a pouca força que já em ti pulsava, fizeste um esforço quase sobre-humano para corresponder ao meu gesto.
Ali ficamos, naquele quarto de hospital, despersonalizado, desumanizado com tantas máquinas que te agarram à vida.
Pudesse eu ter esse poder. De te agarrar à vida como essas máquinas que te invadiam o corpo. Pudesse eu ter o dom de te ver novamente iluminado como sempre foste.
Pudesse eu.
Mas não posso.
Apenas posso agarrar-te a mão e dizer-te tudo aquilo que não te disse. Apenas te posso dizer que és o amor da minha vida e que sempre o serás. Sempre. Sempre, enquanto houver Sol e Lua.
Que me vejo a fazer promessas a um qualquer deus para que fiques bom e para que te traga de novo à vida. À nossa vida que ficou a meio, incompleta, tal como um livro cuja continuação ficou suspensa.
Não sei escrever sem ti. Não quero escrever sem ti. A minha história é também a tua e não a posso continuar apenas a duas mãos.
E hoje, que entro novamente neste quarto, olho-te, mas tu já não me olhas. As batidas do teu coração que entoam no meu, estão fracas. Quase que não as sinto.
Agarro novamente a tua mão. Está fria, quase sem vida, e tu já não correspondes.
Que deus é este que te tira de mim, mesmo depois de tanto lhe suplicar para que não te leve. Mesmo depois de tantas promessas feitas.
Que deus é este! Terei eu que vender a alma ao diabo? É isso que querem? Então vendo. Vendo a minha alma ao diabo, mas não o levem!
Abano-te na expectativa de ver um sinal teu. Peço-te que mexas um dedo como sinal que me estás a ouvir, mas nada.
Apenas o silêncio se faz sentir. O som da desistência. O som da perda. O som do fim.
Deixaste-me apenas o meu amor por ti, incompleto, suspenso, como um livro.
A minha vida é agora reticências. Milhares de reticências. Ensinaste-me tanto enquanto estiveste comigo.
Só não me ensinaste a desistir de ti.
Amo-te para sempre. Para sempre, enquanto houver Sol e Lua.

Comentários

Brain disse…
"Enquanto houver sol e lua", escreve Putty!
Escreve como tão bem o sabes fazer, para completo deleite de quem te lê, porque tu, sem dúvida, tens o "dom da escrita".

Parabéns por esta tua 1ª (que espero de muitas) curta.
Brain disse…
será (Pedro Abrunhosa)

Será que ainda me resta tempo contigo,
ou já te levam balas de um qualquer inimigo.
Será que soube dar-te tudo o que querias,
ou deixei-me morrer lento, no lento morrer dos dias.
Será que fiz tudo que podia fazer,
ou fui mais um cobarde, não quis ver sofrer.
Será que lá longe ainda o céu é azul,
ou já o negro cinzento confunde Norte com Sul.
Será que a tua pele ainda é macia,
ou é a mão que me treme, sem ardor nem magia.
Será que ainda te posso valer,
ou já a noite descobre a dor que encobre o prazer.
Será que é de febre este fogo,
este grito cruel que da lebre faz lobo.
Será que amanhã ainda existe para ti,
ou ao ver-te nos olhos te beijei e morri.
Será que lá fora os carros passam ainda,
ou as estrelas caíram e qualquer sorte é bem-vinda.
Será que a cidade ainda está como dantes
ou cantam fantasmas e bailam gigantes.
Será que o sol se põe do lado do mar,
ou a luz que me agarra é sombra de luar.
Será que as casas cantam e as pedras do chão,
ou calou-se a montanha, rendeu-se o vulcão.

Será que sabes que hoje é Domingo,
ou os dias não passam, são anjos caindo.
Será que me consegues ouvir
ou é tempo que pedes quando tentas sorrir.
Será que sabes que te trago na voz,
que o teu mundo é o meu mundo e foi feito por nós.
Será que te lembras da cor do olhar
quando juntos a noite não quer acabar.
Será que sentes esta mão que te agarra
que te prende com a força do mar contra a barra.
Será que consegues ouvir-me dizer
que te amo tanto quanto noutro dia qualquer.

Eu sei que tu estarás sempre por mim
Não há noite sem dia, nem dia sem fim.
Eu sei que me queres, e me amas também
me desejas agora como nunca ninguém.
Não partas então, não me deixes sozinho
Vou beijar o teu chão e chorar o caminho.
Será,
Será,
Será!
Fantástico!

Muito apropriado.

:)
Anónimo disse…
Sim... poucos conseguem representar assim sentimentos por símbolos que são palavras...
Tens um dom, menina... não o deixes adormecer, seja qual for o motivo...
esta dor assumida é fonte de vida da memória: o que quer que seja só morre quando cai no esquecimento.
;)
"(º0º)"
Olá Rosinha!

Obrigada pelo "incentivo".
Agora que "comecei" vai ser dificil parar! As palavras são como as cerejas!

Um beijo para ti e obrigada pelas tuas, sempre agradáveis visitas.

Prometo "visitar-te" em breve! ;)

Beijo
Anónimo disse…
Gostei putty!