Curtas 5 - Pegadas

Segui-te as pegadas durante muito tempo.
Porque subitamente deixei de te ver, e tu de me procurares.
Desapareceste da minha vista e nada disseste.
Apenas me deixaste pegadas leves, pouco vincadas ao longo do caminho.
Procurei-te por trilhos, vielas e ruelas e nada de ti.
Ninguém sabe quem tu és e ninguém te viu passar, mas tu também passas bem despercebido, porque és discreto.
E isso chamou-me tanto à atenção, porque eu sou como tu e sempre pensei que nos daríamos bem.
Encontrei-te perdido, incapaz de pedir auxilio, e fui eu que te dei a mão, e que te levei onde querias ir.
Dei-te abrigo do frio do coração e um refugio para a alma.
E quando já estavas bem, quando já te sentia bem quente, quando já tinha conseguido arrancar um sorriso envergonhado de ti, tu perdeste-te novamente.
E eu perdi algo de mim, que não sabia que me pertencia.
E agora, ando à deriva, porque tu também o andas.
Perdi-me porque tu também andas perdido.
E eu quero tanto encontrar-te mas não sei se queres que eu te encontre.
Não sei se estas pegadas são um sinal de socorro, ou se te esqueceste de as apagar, enquanto te ias embora. Não quero pensar que quiseste fugir.
E agora, que deixaste um trilho mesmo sem saber se foi ou não intencional, eu sei que te quero encontrar e desta vez não vou desistir e vou estar atenta.
De ti, não posso esperar novos silêncios. Porque o meu caminho que se cruzou com o teu caminho, depende de ti.
Porque no fundo, encontrei um trilho e uma justificação para o percorrer. E sem ti, neste momento não faz sentido, porque mais nada faz sentido, nem as horas nem os dias, nem o universo.
Sou bem capaz de me sentar na curva à espera que me pegues pela mão e que me leves de novo…
Agora descobri! Agora descobri que não fui eu que te encontrei! Foste tu que me encontraste! Não eras tu que procuravas auxilio, mas fui eu que to pedi, mesmo sem o ter pedido. E tu, conseguiste ler-me na perfeição.
Não fui eu que te aqueci, foste tu que me deste alento e nova vontade de sorrir.
Não fui eu que te ajudei. Foste tu que me deste uma esperança. Esperança de que vale a pena esperar por dias melhores, porque nem tudo é mau na vida e porque as tristezas também se dissolvem num simples sorriso. No teu sorriso.
Agora que me fizeste encontrar, não quero mais perder-me e isso não vai mais acontecer, porque tu passaste por mim.
E descobri também que não te perdi, a não ser dentro de mim mesma.
Afinal, estavas aqui bem escondido, à espreita, vigilante, à espera que eu chegasse à conclusão que afinal as coisas boas estão aí, à espera de serem encontradas.
Haja vontade de sair à rua e de procurá-las.
E se não as tiveres, procura as pegadas. Elas levantam-te a um porto seguro.


Comentários

Anónimo disse…
lindo!

que dor durante o texto... o meu lado tristonho, de depressão já ía todo contente pelo texto fora a fazer aumentar a dor...
mas o final deste curtas deu-me a volta...

boa putty!
Anónimo disse…
putty, vê o que encontrei num blog aqui ao lado (de certeza que conheces, mas eu não conhecia....):

"De tudo ficaram três coisas: A certeza que estamos sempre começando....
A certeza de que precisamos continuar...
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar... Portanto devemos: Fazer da interrupção um caminho novo... Da queda, um passo de dança... Do medo, uma escada... Do sonho, uma ponte... Da procura, um encontro." Fernando Pessoa
Boa Papoila!

Por acaso, este não conhecia... (shhhiiiiiiuuuuu....)
Mas obrigada por me teres dado a conhecer.
Fantástico como sempre, o meu querido FP.
E obrigada pelas tuas palavras.

Bj
Anónimo disse…
"Do medo, uma escada... "

Esta marcou-me
Brain disse…
É isso mesmo Putty, muitas vezes o "caçador", tão envolvido que está no processo, nem se apercebe que, afinal de contas, é ele a "caça".

Fantástico.

Beijo.
Anónimo disse…
Pois,a juntar-me ao trio maravilhoso,estou aqui no "work" de lágrimas e nariz bem palhacito!
Lindo Putty.Mas desta vez,mais que admirar o teu post,tenho de fazer uma "inclinação"respeitosamente,a essa linda flôr de nome Papoila.Mulher de sorriso escondido,mas de coração risonho!
Lindo minha amiga,e muito a "talho de foice",para esta tonta chorona.
Perfeito,para uma energia,para um carinho no coração,para a força que parece ter-me abandonado!
Um beijo "molhado"(lágrimas),para vocês
Anónimo disse…
O acaso leva-nos a sítios, condições e pessoas que nunca imaginávamos conhecer. Interiorizamos as situações com normalidade e logo nos acomodamos a elas. E de repente, reiteradamente, o destino, faz girar a roda da fortuna: novo encontro, novo desencontro. E assim, vamos acumulando fragmentos daqui e dali, acarinhando mais os que nos são predilectos. Alguns deles são inolvidáveis e marcam fortemente a forma como encaramos os novos acasos… Ficamos muitas vezes a desejar que o acaso de outrora volte a ser o acaso seguinte… e, assim, vamos fazendo o que podemos para que o imprevisto seja um pouco “calculável”.
“(º0º)”
Anónimo disse…
Amigo Andarilhus,que bem que falas!
tornar o "imprevisto um pouco "calculável" "!
Lá somos "obrigados" a forçar as coisas.Passa o acaso,a ser um caso desse "mprevisto um pouco calculável"!
Anónimo disse…
Caríssima Flor: o que eu queria dizer era "vamos fazendo os possíveis para...". Isto é, começamos a ter algum traquejo para a leitura dos sinais do "acaso" e começamos a ter mais experiência a lidar com ele… apesar de ser sempre imprevisto.
Anónimo disse…
Um texto muito bonito... com muito sentimento.