Curtas 10 - Os começos são sempre tão mágicos

Os começos são sempre tão mágicos.
Comportam em si mesmo um feitiço forte que nos impregna a pele de arrepios.
E porque todos os começos são mágicos, sempre imaginamos que o meio e o fim, que julgamos nunca atingir, também eles o serão, mágicos para sempre.
E hoje, que me sento nesta cadeira e olho o horizonte, enquanto as réstias do sol do dia me aquecem a cara, fecho os olhos e penso com uma certa nostalgia e tristeza, o que vivemos, o que fizemos um pelo outro, do que abandonamos e abdicamos em prol um do outro. Das juras e promessas. Dos encontros às escondidas numa sala de café.
E tu, abdicaste de muito mais por mim do que eu por ti. E sentias-te feliz por ter cortado as amarras do passado para estares comigo, para projectares uma vida comigo, para fazeres novos planos e esquecer aqueles que te propuseste com outra pessoa e que nem sequer os conseguiste iniciar.
E hoje, olho para ti a custo, porque o teu olhar e semblante que me foi apresentado no primeiro dia que te vi, há muito se foi. Esqueceste-o de vez, talvez, num canto qualquer já varrido. E hoje mesmo, olho-te e penso-te com tristeza, porque independentemente de te teres revelado alguém diferente que pensava eu conhecer, eu gostei muito de ti. Amei-te mesmo, com a intensidade de uma mulher que precisa de amor para se sentir viva, que precisa de amar e ser amada para ser sentir feliz, plena, completa, mesmo quando a maré tenta a todo custo revirar o barco.
Eu tinha-te em mim e isso era o bastante para seguir caminho. Para olhar em frente e pensar positivo.
E tu, nesse teu ser ainda de menino que não sabe o que quer da vida ou sequer sabe viver, foste-me sugando as forças.
Quando dei por mim, eu remava para um lado e tu para outro. Eu estava feliz e tu quiseste acabar comigo centenas de vezes, porque achavas que “Isto não vai dar. Preciso de mais. Sinto-me sozinho”.
Como é que alguém que ama e é amado pode sentir-se sozinho… Perguntei a mim mesma centenas de vezes, e perguntei-te também. Mas as respostas que vinham de ti eram vagas, ocas, sem nexo e sem justificação.
E eu, que ficava confusa com tanta parvoíce que te ouvia dizer, continuei a amar-te, devagarinho e em silêncio. Porque no fundo, sabia que tu também me amavas, mas de uma forma estranha e as tuas demonstrações de amor eram também para mim estranhas.
Ou querias estar comigo sempre, ou dizias que eu te massacrava e que não te dava espaço.
Eu nunca sabia como te ia encontrar no próximo encontro.
Se ia encontrar um menino cheio de dúvidas ou um homem decidido a construir algo por nós, mas sobretudo por ele também.
E acontece que o homem foi sempre cedendo ao menino, hoje, amanhã, depois e depois, até te teres perdido de vez, dentro de ti mesmo, e de te teres afogado nas tuas dúvidas e amarguras de que nada te corre bem, de que não prestas para nada e de que eu já não me preocupo….
Se soubesses como funciona a máquina da vida, não agirias assim para contigo, nem para com os outros.
Se soubesses como funciona máquina do amor, hoje estarias aqui comigo, a sorver o resto do sol do dia e amanhã prometeríamos fazer o mesmo, à mesma hora e de mãos entrelaçadas.
Mas a tua máquina parou dentro de ti. E pergunto-me se alguma vez ela funcionará saudavelmente.
E hoje que me imploras que para ti volte, eu penso como tudo isto era desnecessário se tu tivesses dado o valor ao que já não existe.
Mas já foi tarde demais. Sabes que o amor só é eterno até acabar.
Também eu deixei o meu sentimento por ti, num canto já varrido vezes sem conta e para sempre perdido.
Agora, é hora de voltar a olhar em frente. De voltar a ter um brilho no olhar e de voltar a sentir o sol a bater na cara e pensar, que isto sim, vale a pena sentir. Vale a pena agradecer.

Comentários

Brain disse…
Putty,

Os começos são sempre tão mágicos e conforme muito bem ilustras, a magia cai, desaparece, porque nós próprios deixamos.

Espero que com a tua capacidade, consigas fazer a tua magia para sempre!

Beijo.
Anónimo disse…
...são como quando se acende um fósforo: para além do calor que emana e se mantém, tem aquela magia inicial de som de ignição e de criação de luz...
"(º0º)"
Anónimo disse…
pelos vistos estas histórias de desencontros ocorrem mais vezes do que eu imaginava...

parabéns, gostei do texto.

não gostei muito do que senti ao o ler, mas isso são outras histórias...
Brain: o aperfeiçoamento de uma relação é uma empreitada que se vai construindo com o passar do tempo. E eu e ele esperamos consegui-lo sempre.

Rosinha: Gostei da tua "comparação poética".

Papoila: É verdade. Existem "n" histórias por aí. Umas vividas na pele e outras na pele de quem nos é querido. mas isso, torna-nos mais rijos, não?
A mim, tornou.


Aos 3, um beijo.
Anónimo disse…
"Quando dei por mim, eu remava para um lado e tu para outro"

Aqui começa o fim da magia. Este é o sinal de alerta, significando que o "barco" não sai do sítio. Nesta altura ou ambos conseguem voltar a coordenar e o "barco" avança, ou então não saí do sítio e mais tarde ou mais cedo, quando o mar está mais revolto, vai ao fundo. No final, ambos saíem com maselas desta viagem, que por vezes foi curta, outras vezes muito longa...

O importante, é que depois cada um saiba voltar a "apanhar" outro barco, nem que seja para fazer uma viagem sozinho, alegremente.
Concordo contigo, Wife.
Qdo mais nada se pode fazer pelo barco, há que tentar salvar a tripulação...
Nem que seja cada um por si.

Acredito nisto. Defendo isto.

Beijinho e obrigada pelo comentário.