Curtas 7 - Naquela Mesa de Café

Hoje, entro no mesmo café, sento-me na mesma mesa e na mesma cadeira, onde tantas e tantas tardes nos encontrávamos para contrapormos pontos de vistas.
Naquelas tardes de velhos anos, donde saía sempre mais enriquecida pelas nossas conversas sobre o Mundo, sobre ti e sobre eu.
Contigo, aprendi sobre mim, o que eu própria desconhecia.
Descobri, que afinal, não era tão auto-suficiente como pensava. Que afinal, eu também, que pensava ser imune às quedas do coração, tinha um a bater dentro do peito.
Descobri que suspirar por algo ou alguém é tão humano como respirar, só que ainda melhor, porque respiras melhor quando tens uma razão para sorrir.
Descobri-me em ti, porque demonstraste-me com tantas e tantas teorias que eu sempre fiz questão de contrapor, que a nossa vida pode ser um qualquer sitio desde que haja vontade para sorrir e para fazer sorrir, simplesmente por estamos “por cá”.
Que a nossa vida pode ser uma cidade inteira, construída sobre pilares de afecto por nós e pelos outros, com muralhas em castelo de onde nos defendemos do evasivo medo que no mundo reina.
Descobri que a paralisia do Medo só é paralisante quando cedemos, não a ele, mas à nossa debilidade que faz de nós humanos.
Descobri, que há palavras na vida que nos marcam e que delas fazemos lemas.
Descobri, que mesmo no meio de parasitas, podemos sempre encontrar alguém bom e puro, que não se deixou conspurcar.
Descobri que mesmo na Miséria ainda se pode encontrar réstias de humildade.
Descobri, que no Mundo existirá sempre um lugar melhor, mesmo que as estatísticas provem o contrário, mais que não seja dentro de ti ou de um outro qualquer coração.
Descobri que ainda existe alguém disposto a ouvir os meus tantos disparates e descobri a sensação maravilhosa do consolo em ser ouvida com atenção, como quem me sorve os pensamentos.
Descobri que numa simples mesa de café, a conversa pode ser tão fervorosa ou mais que num jogo de futebol, onde rolam palavras descontraídas mas pensadas, não há vencedores nem vencidos, e a arbitragem é a nossa capacidade de respeitar uma opinião diferente da nossa.
Descobri que afinal, tudo pode mudar, numa simples mesa de café, numa simples conversa de almas, onde o sabor é diferente de qualquer outro sitio, porque tem o açucarado da tua companhia.

Marcamos encontro à mesma hora.

Comentários

Brain disse…
E nesta mesa de café, de monitor, rato e teclas feita, descobrimos-te a cada dia que passa, a crescer em capacidade de escrita.

Parabéns, uma vez mais, está excelente.

Beijo.
Anónimo disse…
Putty

Excelente "Curta".
Ao ler esta história, consigo visualizar estes momentos passados numa mesa de café, absorver as sensações e sentimentos aqui descritos.

Para mim, estes são os momentos mais marcantes do dia-a-dia, são para mim os mais apreciados, quando junto com o meu melhor amigo, meu companheiro de sempre, passamos minutos ou horas a fio, sentados numa mesa de café, numa mesa de restaurante, na mesa das nossas refeições ou no sofá, a conversar de tudo e de nada, de nós e dos outros, do passado e do futuro, sem dar pelo tempo passar....

São estes momentos que aprofundam uma relação, seja ela de amizade, de amor ou simples companheirismo.

Parabéns pelo POST
Anónimo disse…
As palavras alinhadas em conversas informais como as de café constroem espaços de troca e partilha. São espaços de revelações, de descoberta. Descoberta do exterior e do interior de cada um de nós. E são espaços que têm o dom de crescer sempre mais, até que, em casos frequentes, se tornam num mundo novo, numa nova existência que passa a ser o nosso centro de vida...
Um bom ano de "palavras e conversas", Putty!
"(ªoª)"