Curtas 8 - Quando já nada mais importa….

Agora que entras por essa porta, já nada me faz tremer, porque já tudo se perdeu.
Tudo se diluiu e não sei os “comos” nem “porquês”. Simplesmente deixou de ser, de existir.
Agora, já não me interesso se deixas o casaco nas costas da cadeira da sala, ou se deixas as chaves do carro no balcão da cozinha. Já não me interesso se não me dás um beijo de boa noite.
Já não me interesso porque tu também já não te interessas.
Estou apenas a aguardar o momento certo para por fim a 7 anos de história, 7 capítulos e muitos sub-capítulos, pensados e construídos a 4 mãos e a dois corações.
E agora preparo-me para escrever o oitavo, o fim. E pergunto-me se tu pensas o mesmo.
E agora que penso na vida a que um dia chamamos de nossa, e faço milhares de retrospectivas, questiono-me em que ponto é que o barco começou a remar em sentido contrário…
Pergunto-me qual foi o primeiro sinal de que as marés um dia calmas, se começaram a revoltar.
E por mais que puxe pela cabeça não consigo chegar lá.
Estaria distraída demais para ver os sinais, estaria demasiadamente compenetrada no trabalho e não tanto em ti, que sempre precisaste da minha atenção para teres paz de espírito, para te sentires confortavelmente egoísta, já que nunca retribuíste na mesma moeda.
Talvez me tenhas começado a culpar por eu não ter a capacidade de gerar um filho teu.
Talvez me culpes da tua própria culpa, porque te é mais fácil.
Eu não te culpo. Nem me culpo a mim, porque como diz o ditado, a culpa morre sempre solteira. E no nosso caso, eu não sei quem é o culpado, e sinceramente de que isso importa agora, se já não há forma do barco voltar a remar no sentido certo.
De que nos vale atirar culpas um ao outro… de que nos vale?
A culpa só morre solteira quando as pessoas não querem encontrar as respostas. Simplesmente quando não se interessam.
Por isso, aqui estamos nós os dois, como sempre estivemos durante 7 grandes e bons capítulos, e agora, separados por uma barreira invisível, de mil e uma razões silenciosas, que nos faz virar costas e atirar a toalha ao chão.
Desistir. É o que nós estamos a fazer. Estamos a desistir de nós, de uma vida, de um amor, de uma história, em prol de um eu e de um tu. Em prol de caminhos paralelos que queremos agora seguir.
Eu sei que tu estás à espera. Esperas que eu dê finalmente a estucada final a esta relação. Que eu te diga “acabou”…e que a nossa história termine com muitas reticências e muitas palavras por dizer, mas que já não farão muito sentido.
Mais ainda não é hora.
No momento, pago-te com silêncio e cobardia, caracteristicas que te são inatas e que sempre fizeste questão de me dar durante os 7 capítulos da nossa existência.
Eu nunca reclamei, porque mesmo assim, fui feliz contigo. E não é agora, que o fim chegou ao oitavo capítulo, que vou reclamar.
E porque 7 anos é muito tempo para quem amou, a
inda não é hora...

Comentários

Brain disse…
Mais uma... para juntar ao rol das tuas excelentes escritas.

Beijo.
Anónimo disse…
Olá,espero que tudo esteja bom por aí.
A leitura destas Curtas 8,foi interessante!Foi para mim recordação,remexer de intimo,foi com serenidade ver as coisas de perto,essas que já estão longe e já não afectam."já não importa,se deixas as chaves..."Mas posso dizer que após este desinteresse,esta protecção que todos criamos á nossa maneira,surge por vezes uma segunda ,terceira...sei lá uma série de cenas que veem pôr fim dentro de nós a tudo que se passou .trazem muita vez a revolta de silêncios,a paciências com o egoismo,o perder em detrimento do outro.
Hoje acho não conhecer quem escolhi para pai dos meus tesouros.Mas hoje tambem tenho a certeza que foi assim que conheci a mãe deles!.Um bj