Mensagens

Matando sem morrer

Imagem
engulo a língua, a boca, os olhos e ouvidos meto as mãos pelo avesso dos forros, mergulho pernas e braços esquecidos mordo e mastigo-me, até deixar de doer perco as palavras, os sons, o tacto, sentidos até finalmente conseguir esquecer recolho-me por inteiro deste lado de dentro enquanto por fora, devagarinho vou-me lentamente matando sem morrer

Paridos

Há quem desrespeite. Há quem despreze. Aquelas mulheres que abriram as pernas para os parirem. A muito custo. Com muita dor. Sem anestesias e cortes a sangue frio. Com prognósticos de virem a ficar ali mesmo por levarem uma gravidez até ao fim. E hoje estão cá todos, os paridos e quem os pariu. E hoje parecem estranhos uns dos outros. Desconhecidos no próprio sangue que os une. Este texto é uma homenagem à grandeza da minha mãe, que teima em dizer que não é nada nem ninguém. Mas eu digo que pode passar muita gente pela nossa vida, mas Mãe, daquelas que realmente são dignas dessa qualidade, só há uma. E eu tenho muito orgulho em ter sido parida por uma grande mulher, em todos os sentidos e mais algum, se o houver. A sangue frio, com dores insuportáveis e mais uma vez, com péssimos prognósticos. Mas cá estamos, eu e ela, e quem continuamente dá o desprezo na cara como se de um beijo se tratasse.

Dissolvente

Imagem
Tenho a acidez dos afectos a invadir-me o peito. E qualquer dia morrem-me de vez, estrangulados pelo cansaço. E o cansaço cansa tanto, que já não lhe aguento o peso, que do coração vai invadindo os olhos. E o panorama muda por completo. E a vida passa a ser vista de forma tão diferente. Hoje não me apetece sentir mais nada que não seja sentir que já nada sinto. (imagem: representação de Sísifo. Desconheço o autor)

Festas Felizes

Imagem
As palavras de nada valem sem os gestos que lhes dão o verdadeiro valor e sabor. Um Feliz Natal e um 2011 também ele muito feliz. Raquel Branco

Luto

Dou por mim de luto e não me morreu ninguém. Não sei se foram os teus olhos que se perderam na distância do que somos ou se o teu coração me abandonou o peito. Mas algo de ti se foi e já não és o todo que só assim fazia sentido. E de ti fica a breve lembrança da felicidade por ser. Hoje estou de luto, vestida do negro em que me sinto apenas só.
Imagem
Não há vastidão de céu que engula a tua falta, ou marés que afoguem a parte de ti que em mim respira. Não há fado que seja digno da minha inquebrável saudade, nem poema, que mesmo ainda por escrever, a consiga matar. [ao som de "Analyse" - Thom Yorke] (imagem retidada da net)
Imagem
Podíamos ter alguém para ouvir as cicatrizes que nos marcam os dias. Os distúrbios enlouquecidos que nos fazem rasgar a própria carne, despedaçando, naco a naco, qualquer réstia de sanidade. Mil e uma histórias que nos dissessem mais de nós, para lá do que os outros olham e vêem. E nem assim sabem olhar, nem assim sabem o que vêem. Se somos nós, que de dentro da carne gritámos, ou se somos apenas mais uma cicatriz numa cara fechada. Mas continuam sem saber dela, por dentro. Não lhe sabem o sangue que jorrou. Não lhe sabem a história da profundidade. E continuam perdidos na estúpida contemplação dos sentidos. Daqueles. Dos mais fáceis. Visíveis. Audíveis. Palpáveis. Enquanto nós, de cara fechada, continuamos sem histórias para contar. (photo Elena Getzieh)