Curtas 2 – Receita para a Solidão

Captei o teu semblante, no meio da multidão. E rapidamente, desenhei a traços largos, a tua face com a minha imaginação, que é tão generosa e muito melhor do que a matéria.
Debruei os teus olhos, grandes, cor de amêndoa, com traços finos e de suave aguarela, tracei o teu nariz, contornei a tua boca, dei-te uns dentes alvos perfeitos, e um sorriso envolvente.
Não tens corpo, aos olhos da mente. Apenas face, e isso basta-me. És fruto colorido da minha tela imaginária. És rosto perfeito. E és só meu, porque só eu te vejo. Só eu sei quem és. Não passas de um perfeito desconhecido na imaginação de outros. Se passares por eles, passas despercebido, porque para eles, és mais um entre tantos outros estranhos.
Se te perder de vista, é porque calcorreio caminhos nos quais tu não me segues.
Se deixar de te ver ou de te falar, é porque morri e não porque te substitui por outro rosto qualquer.
Não! Porque só tu me isolas da solidão. Só tu me fazes companhia. Só tu me contas histórias que me fazem chorar de tanto rir. As lágrimas também são boas porque não se chora só de tristeza. E tu ensinaste-me isso.
Gostava de jantar contigo, mas não posso, porque tu, apenas te alimentas dos meus sonhos, da minha tristeza e da minha vontade de nunca estar sozinha.
Gostava de sentir as tuas mãos a passear-me no cabelo, mas ainda não as desenhei, por isso, já me sinto feliz, só de olhar para ti, sempre com esse sorriso límpido e imaculado.
E falas-me aqui, dentro da cabeça. Tens uma voz tão bonita, tão suave e tão segura. E dás-me o privilégio da tua doce companhia, todos os dias. Queres sempre saber o que fiz, o que vou fazer, se estou bem de saúde, se me alimentei bem. Dizes-me “Bom Dia” “Boa Noite” e “Até amanhã”.
És tão carinhoso comigo. És de uma meiguice sem igual e de uma preocupação constante e cuidada, tal como um pai é para com o seu filho, mas sem o ser.
Agora que me lembro, não te dei um nome.
Que nome fica bem com essa cara, com esses olhos, com esse sorriso, com essa voz?
Sinceramente, não sei e tu também não dás palpites, porque se calhar eu não quero. Porque certamente, essa decisão cabe a mim tomá-la, que te desenhei num dia de chuva, no meio da multidão.
Acho que se te der um nome, deixas de ser tu. Prefiro não te chamar por coisa nenhuma. Afinal de contas, tu também estás sempre comigo, por isso, para quê chamar-te?
Concordas? Claro que sim. És uma mescla de sonho, desejo e vontade. És a minha mais perfeita receita, com todos os condimentos nas doses certas.
És face e não corpo. És vontade e não imposição. És perfeição e não defeito.
Não és matéria, és a aguarela que me dissipa a solidão.


Existes porque eu existo. Se eu morrer, morres comigo. Mas até lá, sou Feliz.


05 Setembro 2006

Comentários

Brain disse…
Mais uma vez: Fantástico! Fabuloso!

Parabéns!

Keep going.
Anónimo disse…
Putty,
agora que se abriram os portões de bronze e libertaste a pena da, talvez, “introversão” (?), já fazes da palavra companheira primeira da solidão, a jeito de receita.
A maior solidão é o comodismo ao isolamento; nós nunca estamos sós, temo-nos a nós próprios. E o que nós somos (ou temos capacidade para ser)? Máquinas de sonho e fantasia! Num espaço fechado e escuro podemos criar um mundo completo e pleno de luz, alegria e cor!
É pena, muitas vezes deixarmo-nos vencer pela tristeza…
A palavra e a escrita são uma cornucópia de prazeres e idealizações… como aqui se pode constatar.
Viva a palavra, homenagem aos criadores das letras!
"(º0º)"
Anónimo disse…
Uma descrição fantástica para o amigo imaginário. Aquele que todos acabamos por ter. Melhor ainda quando este se torna real.
Desejo de muitos, previlégio de poucos.


Parabéns
Anónimo disse…
oi putty, esta tua história faz-me lembrar várias coisas:

a minha menina mais velha tinha amigos imaginários. falava, brincava com eles... eu entrava na brincadeira... agora já cresceu um pouco e deixou-os por aí...

deixa-me tb triste... associo à solidão das pessoas e necessidade de arranjar um amigo(a) imaginário... se calhar é uma boa alternativa, deixarmo-nos envolver nesta loucura (saudável ou não)... mas se calhar aconchegante temporariamente... dá-me tristeza...

tenho uma amigo que em termos praticos é quase um amigo imaginário. conheco-o há 3 anos. falamos todos os dias, nem que seja apenas um "bom dia". é de Lisboa. nunca o vi pessoalmente, mas acompanha-me e acompanhou-me em alturas complicadas. um amigo via net/telefone/CTT... mas um amigo a quem eu nunca senti o toque...