Curtas 3 - Carta de Despedida

Se houvesse uma palavra que eu te pudesse dizer já, diria, mas as palavras já de nada valem, porque o abismo está à vista, e junto com o abismo, o fim.
Vou poupar-te as palavras, meu amor. Deixo-te apenas a minha imagem de quando era feliz, o sabor dos nossos melhores momentos e o trago de mel do último beijo que te dei, ainda hoje.
Parto, porque a vontade de ir é mais forte do que a de ficar, mesmo por ti.
Não é egoísmo. É uma vontade avassaladora de deixar tudo para trás. Tudo o que não quis na vida, tudo o que não quero. De deixar de ser simplesmente eu. Só não pretendia deixar-te. Mas serás feliz. Tenho a certeza disso. Sei que vais ser feliz. Sei que vais encontrar alguém disposto a dar-te muito mais do que eu te dei. Sei que vais deixar uma semente, um marco na vida, no mundo. Em mim, não germinou. Sou solo pobre que não deixa ganhar raiz.
Por isso, não chores por mim, agora que lês a minha despedida. Chora pelo que fui, pelo que fui e não queria ter sido.
Não quero funerais, nem flores, nem choros desesperados. Quero a tranquilidade da imensidão. E isso, meu amor, nem tu me podes dar.
Pensa que fiz uma viagem. Que arrumei as malas e viajei para o outro lado da vida.
Talvez seja melhor, ou talvez não.
Mas a única certeza e verdade que conheço é que não quero mais ficar.

Não percas mais tempo comigo, meu amor. Vai! Queima esta carta e deixa-me para trás. Vive por ti e não por mim. Sê feliz. E eu sei que o serás.

Um beijo de quem te amou em silêncio eterno.

Comentários

Brain disse…
Mais um texto espectacular, que por mim, julgo convidar à reflexão.

Parabéns. Continua.
Anónimo disse…
muito bom...

triste e desesperante como eu gosto!
mais, quero mais da mesma onda... só faltam os Muse como som de fundo.

"Dá-lhe"
Ora! Ora!

Abram alas, Estrelástico!

Não é um texto desesperante, pelo menos por quem o escreve, muito pelo contrário, é uma despedida em forma de desabafo, tranquilo, pacificador, sem dor nem mágoa.
Acho a vida bem mais desesperante do que a morte, desde que não se sofra na passagem para "o lado de lá da margem".
No entanto, não deixa de ser triste. Tudo tem o revés da medalha.

Esperava ver-te mais vezes por aqui, estrelástico! Vê lá se apareces mais vezes!

beijo
PCat
Anónimo disse…
Eu não aguento despedidas!

Choro sempre. É difícil para mim cortar com o passado, mesmo o presente parece-me sempre muito distante... só o aprecio verdadeiramente depois de ele o deixar de ser! O ontem parece-me sempre mais confortável que hoje.