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Um café e um abraço

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Entro no café. Ao balcão, o empregado "então, o que vai ser"? Eu peço "era para desenlaçar um bocadinho este arame farpado que se engadilhou no peito, pode ser?" O empregado "ok, é para já?" Eu (sustenho a respiração) "pode ser agora?!" *** Entro no café. Ao balcão, o empregado "então, o que vai ser"? Eu peço "um café comprido, por favor" O empregado "chávena quente?" Eu "pode ser, não sei (agora é que me tramaste), o que é melhor para o coração?" O empregado responde "sem abraço, nem quente nem frio" *** Entro no café. Ao balcão, o empregado "então, o que vai ser"? Eu peço "um café comprido, por favor, com uma embalagem de abraço" O empregado "com ou sem sorriso?" Eu "(bolas), o que é melhor para respirar de alívio?" O empregado "doce, bem doce esse abraço, duas embalagens de sorrisos e paga apenas o c...

Da memória

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Sempre pensei que a minha mãe era eterna, uma super-heroína, imortal. Desde muito miúda que me lembro de ter pensamentos "e se a minha mãe morrer?!", mas logo de seguida "não, não pode morrer, a minha mãe é imortal, não pode morrer" E sempre que via as mães dos outros morrerem pensava "não, a minha mãe, nunca". Até que a minha mãe morreu. Mas "não, a minha mãe, nunca, a minha mãe não pode morrer porque é a minha mãe". Tantas vezes me recordo de mim, muito miúda a pensar "a minha mãe, nunca". Tantas vezes me recordo de estar colada à janela do meu quarto, à espera de ver o carro dos meus pais estacionar á porta de casa, a minha mãe a abrir o portão e eu a limpar rapidamente as lágrimas de pleno alívio "a minha mãe chegou!" E sempre que por uns minutos se atrasavam, eu pensava que algo lhes podia ter acontecido, um acidente qualquer, que a minha mãe nunca mais chegaria a casa. Mas "não, a minha mãe, nunca!...

Luz

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Nestes tempos, o coração foge-me do peito e renasce-me nas mãos, Num aperto que não sei explicar de tanto o sentir. Nestes tempos, em que os meus olhos sempre brilharam mais com o tilintar das luzes de Natal, em que as ruas sempre me pareceram mais bonitas, mais felizes Nestes tempos, não há luz que me devolva à luz Não há luz que me devolva os teus olhos Não há luz que me devolva a tua vida à minha vida Como me fazes falta, Mãe Como a tua luz faz falta a esta minha escuridão. (imagem retirada da web)

Saudade na ponta dos dedos

Tenho saudades de escrever. Mas quando penso nisso, és tu que me vens à memória, Mãe. E eu já estou cansada de (me) sentir. Não queria escrever sobre aquilo que me mata um bocadinho mais todos os dias. Não queria, Mãe. Tenho dias, Mãe, que ainda não acredito. Não acredito que não posso ouvir mais a tua voz. Que os meus dias estão vazios de ti, da tua presença real, dos teus beijos, dos teus abraços. Até quando isto, Mãe....

Filho

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Apetecia-me escrever para ti, mas não sei (ainda) o que tanto te quero dizer, porque parece sempre tão pouco. Mas quero dizer-te que és o sonho mais bonito que se transforma todos os dias, e todos os dias és um bocadinho mais real; e que és a grande parte do meu coração, e que és tu que preenches a maioria dos meus pensamentos e todas as divisões do meu espaço interior. Já te amo tanto e ainda nem te senti; ainda não te sei sequer dizer; e ainda raramente e em surdina te chamo filho ; e é-me tão estranha esta palavra, tão estranha quanto a palavra mãe que me vai vestindo lentamente. Mas sempre que me chamam ou eu me penso mãe , eu sorrio e ilumino, num misto de prazer, felicidade e medo. Eu que já tinha tantos medos, tenho agora muitos mais. É inevitável , dizem. Eu não sei se é inevitável, mas tento evitá-los e, por isso, vou pensando na próxima vez em que te vou ver por breves momentos, qual bonequinho articulado a gesticular dentro de mim. E aí penso f...

Silêncio de ouro

há fases em que o silêncio é de ouro é preciso guardar o que de mais precioso nos acontece evitando que o mundo nos engula a felicidade o meu silêncio é de ouro guardo para mim o que de melhor me acontece e evito que o mundo entre sem ser convidado

Subitamente

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Subitamente, há um rebuliço dentro de mim, danças de mil cores a povoarem cada minuto que passa, sons de mil instrumentos que estremecem o meu mundo Subitamente, há caminhos únicos quer calcorreio em bicos de pés, não sabendo o que me espera ao virar da curva E subitamente, a vida, que nos bate de frente, um porta aberta para o mundo, um coração lançado ao vento E subitamente, já não sei quem sou, para unicamente te ser Há um pedaço de mim que voltou a sonhar