Mensagens

À minha Mãe

Imagem
A minha mãe é como a linha do horizonte. Por mais que queiramos definir o limite entre o céu e a terra, é impossível aos olhos humanos fazê-lo. Assim é a minha mãe, impossível de definir, de a dizer por palavras inventadas. Por causa dela, “estar” e "existir" passaram a conjugar-se de forma distinta na vida. A minha mãe não está, mas a minha mãe é, sendo que é em tudo e todos que eu também sou, mesmo quando também eu não estiver. E a isso chamo de perpetuação do Amor na sua forma mais elevada. É impossível amar mais do que isto.  A minha estrela completa hoje 73 anos de existência. Desejo acreditar que o céu está em festa e que ela, na sua sublime existência etérea, dança, brinda, brilha e sorri em paz. Para sempre, Mãe.

Palavras inteiras

Imagem
Há palavras inteiras que são verdadeiras casas ao abandono. Palavras que um dia tiveram lustres, cheias de luz cristal e de reposteiros imponentes que pingavam vida até ao chão. Há tantas palavras inteiras que deixaram de sair da minha boca por já não ter sítio por onde entrar. Tudo  são portas fechadas, cadeiras e pratos vazios e mesas onde já só se bebe do vício e não da sede.  E eu tenho uma sede inteira. Inteira de mim e de tudo o que de inteiro pode haver. Abro a boca e apenas um grito mudo sem resposta.  Abro a porta e apenas o vazio pintado de flores secas. Do chão saltam línguas de fogo extinto que se desfazem em cinza. Tudo é pó de dias felizes, de tempos em que as palavras tinham eco e sítio onde  adormecer. E penso que já ninguém quer partilhar a mesma mesa que eu, beber um trago do meu copo sem fundo.  Há palavras inteiras que morrem sem nunca crescer. Minguam na minha boca de onde apenas tenho sede, vontade inteira maior ...

Embalo de Mar

Imagem
Depois de ti, agigantam-se tempestades. Pássaros erguem-se assustados, nuvens adensam-se engolindo o céu, o mar revolta-se na minha direcção. E nunca o mundo foi um lugar tão só.  Depois de tudo, o meu peito é ninho de pássaros tristes, um tecido vivo à sorte dos abraços do vento que o desmembra junto com memórias que um dia a vida fez morada.       E é tudo tão longe agora que não estás. Há tanto tempo que faço o meu próprio velório e bebo da dor do meu luto. Quando morri depois de ti, ninguém deu conta. Ninguém percebeu que quem cá ficou é apenas uma ilusão que deixou de cantar a vida para apenas adormecer na tua morte. Tu não estás. Eu deixei de estar. E o mundo nunca foi tão grande de ausência. Há coisas que não consigo ignorar, quando as lágrimas são balas que esperam no céu ou quando o mar que te levou me levanta a mão. E com dedos de gume desfaço ondas em espuma que morrem tristes aos meus pés. E as que voltam são grito, todas a...

Há ainda esta casa

Imagem
Ainda há esta casa que eu um dia habitei. Todos os cheiros, todos os sons. Há ainda esta casa, mas já nada nela habita, excepto  o choro profundo dos pássaros, que se vão abrigando do negro da noite. Há ainda esta casa. Há ainda esta casa aninhada no meu peito. Há ainda a memória de quando éramos todos dentro dela, de quando os azulejos cantavam vida e as cadeiras rangiam de vozes sobrepostas. Há ainda esta casa, e há agora tanto vazio. As paredes desmaiadas de silêncio e pó. Móveis tristes, parados no tempo. Espectros que esperam que o tempo passe quando o tempo já há muito parou. Há portas que por mais que se abram, estarão para sempre fechadas. Mãe, há ainda esta casa. Mas a minha morada serás sempre tu. Sempre tu e o cheiro das flores que guardavas no peito. 2015 Janeiro 27

Inquietude

Imagem
Há uma inquietude que me toma como uma necessidade de vomitar palavras. Ninguém consegue impedir um vómito. Ninguém consegue impedir que, depois de um peito rasgado, os pássaros continuem aninhados em silêncio, impedindo o seu desnorte. Por isso abro os braços e fecho os olhos, e faço dos meus dedos a sua nova rota de migração. Talvez voltem um dia. Talvez de novo façam ninho. Porém hoje sei que jamais farão morada. (imagem retirada da net)

Um café e um abraço

Imagem
Entro no café. Ao balcão, o empregado "então, o que vai ser"? Eu peço "era para desenlaçar um bocadinho este arame farpado que se engadilhou no peito, pode ser?" O empregado "ok, é para já?" Eu (sustenho a respiração) "pode ser agora?!" *** Entro no café. Ao balcão, o empregado "então, o que vai ser"? Eu peço "um café comprido, por favor" O empregado "chávena quente?" Eu "pode ser, não sei (agora é que me tramaste), o que é melhor para o coração?" O empregado responde "sem abraço, nem quente nem frio" *** Entro no café. Ao balcão, o empregado "então, o que vai ser"? Eu peço "um café comprido, por favor, com uma embalagem de abraço" O empregado "com ou sem sorriso?" Eu "(bolas), o que é melhor para respirar de alívio?" O empregado "doce, bem doce esse abraço, duas embalagens de sorrisos e paga apenas o c...

Da memória

Imagem
Sempre pensei que a minha mãe era eterna, uma super-heroína, imortal. Desde muito miúda que me lembro de ter pensamentos "e se a minha mãe morrer?!", mas logo de seguida "não, não pode morrer, a minha mãe é imortal, não pode morrer" E sempre que via as mães dos outros morrerem pensava "não, a minha mãe, nunca". Até que a minha mãe morreu. Mas "não, a minha mãe, nunca, a minha mãe não pode morrer porque é a minha mãe". Tantas vezes me recordo de mim, muito miúda a pensar "a minha mãe, nunca". Tantas vezes me recordo de estar colada à janela do meu quarto, à espera de ver o carro dos meus pais estacionar á porta de casa, a minha mãe a abrir o portão e eu a limpar rapidamente as lágrimas de pleno alívio "a minha mãe chegou!" E sempre que por uns minutos se atrasavam, eu pensava que algo lhes podia ter acontecido, um acidente qualquer, que a minha mãe nunca mais chegaria a casa. Mas "não, a minha mãe, nunca!...