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Escuridão

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Densa, em dias magoados, a escuridão é inevitável. Impossível não a sentir nos golpes dolorosamente mais finos.  E com a força do querer, fechamos muito os olhos, para que ao abri-los, a inundação da claridade aconteça. Bálsamo cicatrizante.  Mas nem sempre assim o é.  E quando fechamos muito os olhos, o que acontece tantas vezes, é apenas a antecipação do escuro. E o escuro nem sempre é só a ausência de luz. Por vezes o escuro é tão brilhante que cega, lancina. Porque também dói. Porque também sangra. E lateja a cada respirar. Como um coágulo preso em cada veia. Que não cede e silenciosamente cresce, enquanto nos entretemos nos intervalos do tempo. Quando o medo é só mais uma palavra adormecida, à espera. E entre o espaço denso e escuro dos dias magoados, em que fechamos muito os olhos, em esperança, somos matéria por ser.  Indefinida. Sombra e luz, medo e coragem.  Vida em recomeço ou em mergulho de morte. Pergunto-me de que forma vamos sair desta vez. 

Por uma gota

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Talvez seja esta. A gota tão pequena quanto aparentemente inofensiva na sua queda. Tão subtil na sua dança descendente. Inconsciente do vento que a leva e da gravidade do seu impacto. Talvez seja esta a gota do momento. Aquela que cai e tudo transforma, num efeito de torrente, lamacento. Por vezes necessário para que a beleza possa finalmente brotar. A que faltava para criar uma nova maré que nenhuma margem consiga conter.  Talvez tenha sido esta. A gota. A derradeira. Aquela que manteve o charco desiquilibradamente húmido. Por muito tempo estagnado. Mas por fim choveu, sem saber que chovia em força. E com isso, pariu das entranhas do tempo uma nascente de imprevisibilidade. E uma nova consciência líquida gritou o seu lugar no mundo. Com uma gota só. Tão clara como só a água o sabe ser.

(In)existir

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Há dias assim. Dias apenas. Em que só existimos na pequena dimensão de inexistência. No escuro lado do esquecimento. O lado que tão bem nos conhece, numa fragilidade de ser. Ou num rasgo de luz, talvez. Na claridade que a sombra não consegue acompanhar. Em contra mão. Como se possível fosse passar entre os pingos do mundo, num dia de tempestade interior. De simplesmente ser na invisibilidade. Não sendo nada em lado nenhum.  (In)existir. 

Na impossibilidade das palavras

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  Mãe. Todo o teu silêncio é um grito meu. Estridência funda. Um silêncio que lamina em voz nenhuma e que me rasga um pouco mais os dias. Para que (todas) as cicatrizes nunca fechem de vez. Hoje todas elas abrem, sangram um pouco mais, e o teu nome, como um eco de canto de coro, emerge do longe onde tu estás. Em lamento de peito. Num embargo de voz. E assim sou. Um pequenino vazio impossível de dizer, por já não ter colo onde cair. As tuas mãos em abraço. Por mais que queira, por mais que ria, Mãe, por mais que uma luz se erga sobre mim, há sempre esta lágrima encostada ao peito, um lago pronto a chover.  E este vazio pequenino que eu sou, adorna-se de uma dor maior. Uma incandescência de alma que alegria nenhuma consegue apagar. Porque “ A tua morte é sempre nova em mim. Não amadurece. Não tem fim ”. O esquecimento acontece-me na implacabilidade do tempo. O som da tua voz. Como quando se perde algo muito importante e não se sabe onde nem em que momento.  E um dia acontec...

Mãe-Bicho

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Não, filho. Nos dias de escuridão o meu peito não carrega a luz que tu vês ou achas que vês. O meu peito, na escuridão, é só mesmo isso. Um negro que escapa para fora de mim e alcança tudo o que está em meu redor, incluindo Tu. Não sou a luz que insistes em ver, mesmo que o queiras muito. Ás vezes sou só Mãe-Bicho. Mãe-Corvo. Mãe-Mulher.  A Mãe-Andorinha de peito claro nem sempre está cá. Nem sempre protege. Nem sempre o quer ser. Habitua-te. Para conheceres a luz tens de saber o que é a escuridão.

À minha Mãe

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A minha mãe é como a linha do horizonte. Por mais que queiramos definir o limite entre o céu e a terra, é impossível aos olhos humanos fazê-lo. Assim é a minha mãe, impossível de definir, de a dizer por palavras inventadas. Por causa dela, “estar” e "existir" passaram a conjugar-se de forma distinta na vida. A minha mãe não está, mas a minha mãe é, sendo que é em tudo e todos que eu também sou, mesmo quando também eu não estiver. E a isso chamo de perpetuação do Amor na sua forma mais elevada. É impossível amar mais do que isto.  A minha estrela completa hoje 73 anos de existência. Desejo acreditar que o céu está em festa e que ela, na sua sublime existência etérea, dança, brinda, brilha e sorri em paz. Para sempre, Mãe.

Palavras inteiras

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Há palavras inteiras que são verdadeiras casas ao abandono. Palavras que um dia tiveram lustres, cheias de luz cristal e de reposteiros imponentes que pingavam vida até ao chão. Há tantas palavras inteiras que deixaram de sair da minha boca por já não ter sítio por onde entrar. Tudo  são portas fechadas, cadeiras e pratos vazios e mesas onde já só se bebe do vício e não da sede.  E eu tenho uma sede inteira. Inteira de mim e de tudo o que de inteiro pode haver. Abro a boca e apenas um grito mudo sem resposta.  Abro a porta e apenas o vazio pintado de flores secas. Do chão saltam línguas de fogo extinto que se desfazem em cinza. Tudo é pó de dias felizes, de tempos em que as palavras tinham eco e sítio onde  adormecer. E penso que já ninguém quer partilhar a mesma mesa que eu, beber um trago do meu copo sem fundo.  Há palavras inteiras que morrem sem nunca crescer. Minguam na minha boca de onde apenas tenho sede, vontade inteira maior ...